Chegados aqui, é legítimo interrogar-nos os motivos de tanto afã na introdução do i-voting. Fala-se na democratização do clube e reforço da legitimidade das decisões adotadas pelos sócios.
1 - A Direção do Sporting fez saber publicamente ter recebido as conclusões da Comissão criada para analisar a introdução do i-voting. De igual modo, foi publicado no "Sporting" um longo artigo sobre as virtualidades deste sistema, apontando-se exemplos da Estónia e de Ontário para justificar a introdução deste modelo de votação. Serei bem claro sobre este tema.
Não entendo este autismo que grassa em Alvalade. Num clube que não vence o campeonato há 18 anos, que ficou em 4º lugar no campeonato com um registo recorde de derrotas, como é possível que a energia esteja focada no i-voting?
2 - Antes de mais, mandariam as regras de transparência e, diria mesmo respeito pelos sócios do clube, que os órgãos sociais - Direção e MAG - anunciassem a composição da dita Comissão e depois disponibilizassem aos sócios uma cópia das conclusões. O tema do i-voting suscita diversas reservas em termos de segurança e integridade dos sistemas, o que justifica a máxima transparência nos trabalhos que sustentam a proposta da sua introdução. Sem essa transparência, serão legítimas as críticas sobre falta de informação e sustentação técnica da proposta a formular por estes OS.
3 - Como será fácil de entender, o exemplo da Estónia não descansa ninguém, pois aquele EM da EU introduziu este sistema de votação em 2005, e passados 15 anos mais nenhum parceiro na União aderiu ao mesmo, nem se conhecem outros exemplos de adoção generalizada por entidades públicas (com exceção de alguns Estados nos EUA e Canadá). E a razão de ser de tal resistência - quando é evidente a vantagem da maior facilidade de acesso e democratização do processo eleitoral - reside precisamente na falta de garantias sobre a inviolabilidade e integridade do sistema de i-voting, o qual continua permeável a ataques externos e riscos de viciação. Afirmar sem mais, como se faz no jornal do clube, que o sistema será entregue a uma entidade externa independente a quem caberá assegurar a integridade do sistema é de uma enorme leviandade. Esta não é a forma de tratar de um assunto tão sensível e mostra (uma vez mais) como se trabalha (mal) em Alvalade.
4 - Chegados aqui, é legítimo interrogar-nos os motivos de tanto afã na introdução do i-voting. Fala-se na democratização do clube e reforço da legitimidade das decisões adotadas pelos sócios. Mas não seria esse mesmo reforço de legitimidade que justificaria a introdução da segunda volta e exigência de maioria absoluta na eleição dos OS? De que tem medo Varandas? Estará apostado na divisão para vencer no meio dos destroços do clube? E será que não poderíamos por começar por introduzir o voto em urna descentralizado nos núcleos do clube? Núcleos, esses, que têm sido sucessivamente desprezados pelas direções dos clubes, sem voz e limitados a um jogo anual em Alvalade. E se a preocupação é a democraticidade do nosso clube, é hora de iniciar uma discussão serena sobre o número de votos a atribuir em função da antiguidade, reduzindo o gap existente.
5 - Não entendo este autismo que grassa em Alvalade. Num clube que não vence o campeonato há 18 anos, que ficou em 4º lugar no campeonato com um registo recorde de derrotas, como é possível que a energia esteja focada no i-voting? Que tal dar uma explicação séria aos sócios sobre o que correu mal e o que se pensa fazer para que uma época destas não volte a suceder? Já chega de falar em Alcochete, da herança e do COVID. Mais do que desculpas, exigimos soluções a quem se apresentou a escrutínio como profundo conhecedor do clube.
6 André Bernardo veio falar do valor do plantel do clube. E mistura valores de balanço com valores de mercado. No meu último artigo reportei a diminuição do valor contabilístico do plantel, fruto da política desportiva seguida com os resultados que se sabem. Hoje temos um plantel desvalorizado, vendemos 150M em ativos e gastamos 70M, dos quais poucos atletas trarão efetivas mais-valias. Aliás, os jogadores mais vendáveis do plantel são alguns jovens, assim como Acuña e Wendel. André Bernardo pode falar do COVID, mas não foi o COVID que contratou Ilori, Eduardo, Doumbia, Renan ou Rosier. E é sobre essas escolhas - muitas delas para descartar por Ruben Amorim - que André Bernardo deveria dar explicações no seu polígrafo. Depois de Alcochete, depois da herança, agora temos o COVID. Só não temos é competência e transparência em Alvalade.
