Diria que é preciso mudar de lógica. Se, depois de tanta compra, tanta experiência, tanta variação, o modelo continua a não resultar, não será o jogador X ou Y a fazer o milagre.
A sabedoria acumulada ao longo de décadas produziu uma das sentenças mais famosas do futebol: "só faz falta quem lá está".
O facto é que os nossos futebóis continuam rasteirinhos
Quantas vezes já ouvimos essa frase nas ondas da rádio, quantas vezes já a lemos nas páginas dos jornais, quantas vezes a vimos traduzida nos relvados em forma de garra e brilho? É um clichê, sim, mas, como dizia aquele Johnny no filme "Naked", de Mike Leigh, talvez os clichês sejam clichês por serem verdade.
Pois Jorge Jesus recusa esse conhecimento acumulado de forma radical. Com ele, essa do "só faz falta quem lá está" não vale. Depois dos gastos de milhões que o Benfica fez em tempos de pandemia para lhe oferecer os atletas pedidos, o técnico parece ter desenhado um modelo de jogo para um jogador que nunca lá está. É um conceito interessante do ponto de vista teórico, não digo que não. E muito português, como o saudoso Eduardo Lourenço poderia explicar. Mas receio que, na prática, não esteja a dar grandes resultados.
Além do mais, esse elemento ausente - esse jogador que não está lá e que, demasiadas vezes, parece ser a base de todo o esquema da equipa - é fugidio: ora é um trinco imenso, capaz de dar conta do recado sozinho; ora um central, a somar aos vários centrais com currículo existentes no plantel (dois deles, contratações recentes e de peso); ora um lateral, que possa espicaçar, segundo as regras da concorrência, outro lateral comprado por indicação do técnico; ora um número oito, um médio "todo-o-terreno", que transporte a bola e arquitete o ataque... Diria que é preciso mudar de lógica. Se, depois de tanta compra, tanta experiência, tanta variação, o modelo continua a não resultar, não será o jogador X ou Y a fazer o milagre.
A tendência para começarmos as partidas a perder é mesmo assustadora
O facto é que os nossos futebóis continuam rasteirinhos. Foi boa a vitória ao Vitória, na quarta -mas, se o "jogo jogado" deu para perceber alguma coisa, foi que a goleada ao Vilafranquense não sinalizou nenhuma melhoria fundamental. Ganhámos ao Vitória de Guimarães nos penáltis, mas também empatámos de penálti. Claro que o castigo faz parte do jogo e o golo chutado solenemente da marca dos onze metros vale o mesmo do que qualquer outro. Mas a falta de eficácia de bola corrida é muito preocupante.
Já a tendência para começarmos as partidas a perder é mesmo assustadora. Além disso, jogamos sem chama. Taarabt e Pizzi são, neste momento, os únicos desequilibradores da equipa. (Rafa sai a perder neste futebol sem velocidade no passe, sem ruturas, sem surpresa.) O sistema, o modelo, a estratégia e a confiança -nada está bem. Detesto ser desmancha-prazeres, caros amigos. Pôr o óbvio por extenso já dói o suficiente: a jogar assim, não será só a Liga Europa que veremos voar para outras paragens...
