BOLA DE TRAPOS- Um artigo de opinião de Miguel Carvalho.
No foguetório que se seguiu à passagem do FC Porto aos quartos de final da Liga dos Campeões, Marchesín foi o filho de um Deus menor. Todos - mea culpa, mea culpa - exultaram com os feitos do indomável Sérgio Oliveira e a juvenil veterania de Pepe, mas a exibição do argentino pareceu apenas um detalhe naquele desempenho coletivo soberbo.
"Goleiro não ganha jogo, só perde", ironizava Yustrich, em finais da década de 1960. Nessa época viveu Barbosa, titular da seleção brasileira que perdeu no Maracanã a final do Mundial com o Uruguai (1950), condenado ao ostracismo pelo crime de estar no lugar errado na maior tragédia brasileira com a bola nos pés.
"No Brasil, a pena é de 30 anos, por homicídio. Eu já cumpri mais de 40 anos de punição por um erro que não cometi", desabafou, em 1994, quando o impediram de fazer uma visita de cortesia aos atletas da "canarinha" que disputavam a "Copa" dos EUA. Barbosa dava azar, dizia-se. E, na verdade, o Brasil venceu a final.
Os guarda-redes vivem de injustiças assim. Mesmo a história de um triunfo, mais ou menos romanceada, tende a não favorecer a posição mais trágica, inglória e solitária que o futebol pariu. A menos, claro, que a lotaria dos "penalties" numa final ou a faísca de uma defesa impossível num minuto dramático se imponham na memória dos adeptos. Aparte isso, sobram os gigantes. Mas esses são de outro planeta, aparecem por cá de visita para que os admiremos e passemos a vida a suspirar por eles, de tão raros.
E, no entanto, em Turim, Marchesín foi autor de uma daquelas páginas que merecem a eternidade. O que ele defendeu nesse jogo, e como defendeu, merece ser relevado e revisitado. Diante de um rival arrogante, com postura de "favas contadas" e certo de que o relógio acabaria por contar o tempo a favor do óbvio, Marchesín meteu mãos à tarefa de desafiar o que estava escrito. O FC Porto deve-lhe momentos de brilhantismo e o caráter destemido com que se manteve à tona. Foi ele o osso duro de roer para que a equipa desfrutasse do naco suculento da vitória. Filho de médico, bem se pode dizer que o "arquero" argentino manteve o dragão ligado à máquina nas ocasiões em que ele parecia moribundo e com prognóstico muito reservado.
Não é de hoje, nem por causa dessa exibição, que a narrativa de Marchesín no clube merece ser destacada. Um ou outro deslize custaram pontos, mas não mancham o seu blindado compromisso com a equipa e muito menos ofuscam as suas qualidades, há muito em evidência. Marchesín despediu-se em lágrimas do América para sair da sua zona de conforto. Mal-amado ou quase esquecido na Argentina, se descontarmos os fanáticos do Lanús, ele tinha no México o estatuto e a "família" futebolística dos quais abdicou. Escolheu o FC Porto por querer arriscar tudo o que sabia, e também o desconhecido, num clube onde não ser campeão é sempre um fracasso. Talvez por isso, não seja difícil perceber porque foi dos melhores a adaptar-se à mentalidade da casa.
Dito isto, espanta que um guarda-redes do seu calibre continue ausente dos debates sobre o presente e o futuro da seleção da Argentina. Bem sabemos que brilhar no campeão português perde sempre, em importância, para o estrelato que outros conquistam em Espanha, Itália, Alemanha ou Inglaterra. Marchesín não está sequer próximo do coração ou da vista dos argentinos, nem tem a idade a seu favor para que a transferência para uma liga milionária se proporcione.
Mas se o FC Porto for ainda mais longe na "Champions" e a ele continuar a dever uma boa parte dos seus triunfos, Marchesín abrirá a porta ao inevitável, mesmo que tenha de esbarrá-la na cara dos "entendidos": o lugar da seleção será seu por direito e os argentinosterão de fazer-lhe a vénia que há muito lhe devem. Por cá, se querem saber, já percebemos o óbvio: destes não há muitos. E ele já ganhou o direito a que lhe chamemos nosso. Para sempre.
