DESCALÇO NA CATEDRAL - Terei percebido mal e "jogar o triplo" queria dizer perder, perder e perder?
"É proibido atirar a toalha ao chão", diz Rui Costa. Estamos todos de acordo, claro, o Benfica joga sempre para ganhar.
Quando a vitória está à vista, quando há hipóteses matemáticas, mas também depois, quando já nem a matemática estiver do nosso lado. Sim, acho muito bem mandar uns recados para dentro quando é preciso - mas talvez falte também a Direção aprender a ouvir os recados da realidade.
Sair deste estado de negação. Tentar perceber o que já todos perceberam; ver o que está, escarrapachado, à frente dos olhos. É o chamado "óbvio ululante" de que falava o mestre Nelson Rodrigues. Não, pois não, não podemos nunca capitular - mas talvez tenha chegado o momento de recapitular.
Primeiro, a conversa era de grande aposta na formação, que com a geração que aí vinha íamos ganhar tudo, etc. Afinal, o que se vê é que a Direção foi desbaratando os nossos jovens craques em empréstimos e vendas sem qualquer sentido.
Primeiro, vinha aí a crise da pandemia e o Benfica teria de seguir uma política cuidadosa de contenção financeira. Afinal, vieram as eleições no clube e, assustado com a possibilidade de ser destronado, Luís Filipe Vieira pôs-se a fazer compras milionárias - investindo mundos e fundos na famosa "demagogia do cifrão".
Primeiro, a Direção vai buscar o técnico que saíra a mal do Glorioso para o Sporting de Bruno de Carvalho e que, no processo, desrespeitara os adeptos e a instituição. Era a ideia de um negócio faustiano que ia pôr o Benfica a "jogar o triplo", a ganhar tudo, a arrasar. Afinal, perdemos com o PAOK na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões; perdemos a Supertaça com o FC Porto; fomos eliminados da Taça da Liga pelo SC Braga; e perdemos com o Sporting, ficando a nove pontos do líder e em quarto lugar... Correção: depois do empate com o Vitória de Guimarães, são onze pontos. É um daqueles casos em que, caramba, nem é preciso formular qualquer juízo. A coisa é tão óbvia e tão triste que basta descrever os factos.
Quando questionados em relação a estes ziguezagues, os manda-chuvas do clube têm por hábito responder com números cheios de zeros ("milhões", sempre "milhões"), palavras estrangeiras (tipo "branding") e termos espertalhotes como "modelo de negócio". É chegado o momento de falar português, meus senhores. Que raio de "modelo de negócio" é este que põe o Glorioso a engolir sapos monumentais, a trair a sua história e a ver passar comboios em todas as competições?
Os jogadores não podem baixar os braços, claro. Mas chegámos a um ponto-limite. O treinador e o presidente têm de ser responsabilizados. Ou terei percebido mal e "jogar o triplo" queria dizer perder, perder, perder?
