O técnico do Benfica continua a fugir à questão de fundo: por que razão a sua equipa anda triste, produz tão pouco e está já a cinco pontos do líder FC Porto? A resposta está dentro e não fora de casa
Cabisbaixo, mãos na cintura e pensativo: plantado na área técnica reservada ao Benfica, Jorge Jesus era a imagem do desalento em pessoa, mal se escutou pela última vez o apito de Hugo Miguel no dérbi de Alvalade.
"Impotente", "atordoado" ou "descrente" foram, naqueles segundos, adjetivos selecionáveis para legendar o retrato do treinador, ali estacado. Por instantes, pareceu que buscava mentalmente respostas e justificações para mais uma fraca e desinspirada exibição do coletivo, que, pese a união tão apregoada nos bastidores, em campo continua desgarrado e desconexo. Mas, passados nem dez minutos, na altura de dar explicações ao mundo, atalhou pelo caminho mais fácil.
Resolveu sacudir responsabilidades pessoais e apontar o dedo a terceiros, recriminando o árbitro por ter validado o golo do Sporting e sonegado uma grande penalidade por "gravata" de Maurício a Cardozo. Já na sala de Imprensa, enrodilhando-se num novelo de contradições, começou por dizer mal da maré de lesões que o obrigou a gastar prematuramente as três substituições de que dispunha. Depois, sem dar por isso, escorregou para a valorização da súbita onda de azar, sublinhando a influência da mesma e detalhando em que aspetos os jogadores lançados no jogo contribuíram para reerguer o conjunto e, assim, evitar nova derrota. Um discurso nervoso, com o técnico a dar sinais de desnorte, desespero e... a repescar à pressa um canhão que considerou perdido (Cardozo). Foi um "seja o que Deus quiser".
O que fica, de momento, para a história deste campeonato é que o Benfica apresenta quatro pontos ao fim de três jornadas, quando se lhe exigiria que cumprisse esta fase com, no mínimo, sete pontos. Mas o pior de tudo é que a equipa continua como a vemos há largas semanas: adoentada e triste. Jesus não soube - nem quis - explicar o que se questiona a cada jogo que passa: por que motivos a equipa não rende e, sem alterações profundas na estrutura-base da época passada, pratica um futebol insosso, contornando dificuldades de construção e criação de forma previsível, isto é, com bolas longas para os milhões da linha ofensiva.
Contra o Sporting foi feliz, é verdade, talvez porque no pelotão de
Leonardo Jardim ainda há muitos meninos que se encolhem na hora de varrer cirurgicamente um adversário, como sucedeu no lance em que o talento de Markovic safou o Benfica. Só que a Jesus, há cinco épocas sentado no mesmo banco e, na circunstância atual, comandando "o melhor plantel dos últimos 20 anos", pede-se e cobra-se muito mais. Repetir, conferência após conferência, a ladainha de que o que interessa "é como [o campeonato] acaba e não como começa"... é massacrar a (pouca) paciência da massa adepta. Lamenta ainda que o mercado de transferências só agora se encerre, mas o esforço que faz nesse contexto, tentando identificar um fator externo de desestabilização, acaba por ser contraproducente, porque com isso está a assumir que não tem sido capaz de espremer tudo o que os seus jogadores têm para dar. Perante isto, Jesus tem de se apressar a alegrar a malta, porventura com dinâmicas de treino e de jogo diferentes. Se não o fizer urgentemente, desta feita serão os adeptos - e não Cardozo - a empurrá-lo, retirando-lhe ambiente e pressionando-o para que pegue na trouxa e saia pelo próprio pé. O FC Porto, líder isolado, já vai cinco pontos à frente...
