Jesus deixou de insistir na desculpa da covid e voltou à sua personagem das grandes tiradas
DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
Vamos com calma. A época do Benfica tem sido um fracasso, continuamos a ver o primeiro muito ao longe no campeonato, mas ninguém pode negar que as vitórias ao Belenenses SAD e ao Boavista foram claras e sem espinhas. Temos de saber ver as coisas pelo lado positivo.
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Além do mais, Jorge Jesus deixou de insistir na desculpa da covid e voltou à sua personagem das grandes tiradas. Recortei uma, de segunda-feira, para memória futura. Uma ousada tentativa de elogiar a equipa e, ao mesmo tempo, pôr água na fervura. É um pedaço de prosa poética que nem vos digo nada. Reza assim: "Esta equipa está no bom caminho só que pontualmente já perdeu muitos pontos". Trata-se de uma pérola literária de nível mundial, das que merecem ser postas ao lado dos famosos aforismos de Yogi Berra ou Groucho Marx. Estou a falar a sério. Por favor, não descubram aqui nenhum tipo de ironia, queridos leitores. Como escritor, admiro frases vivas assim. Fantásticos blocos de palavras que abrem a língua portuguesa e alegram o nosso espírito geral, tão carente de humor nestes dias pandémicos.
Mas, a propósito de "pontos" e "bom caminho", talvez valha a pena debruçarmo-nos um pouco sobre essas duas vitórias. Com o Belenenses SAD, a primeira e a segunda parte foram dois jogos diferentes: em termos de rapidez, confiança, ideias, começámos por não estar lá... Com o Boavista, também demorámos muito a carburar contra dez jogadores. Houve coisas boas, sim. Laterais inventando passes que encontravam espaço entre linhas para os avançados, por exemplo. Diogo Gonçalves, principalmente, está inspiradíssimo. A confiança de Seferovic também deve estar a subir. Mas uns fogachos de "eficácia" não chegam para formar um "modelo de jogo". Sei que há a tristeza de uma época falhada e a desolação dos estádios vazios - talvez isso tudo contamine a forma como vemos estes jogos. Mas não têm essa impressão, caros amigos? De que falta qualquer coisa de essencial nos futebóis do Benfica? Que não há uma ideia-mestra que segure aquilo tudo? Que, ao mínimo azar, tudo pode voltar a descambar?
Diogo Gonçalves, principalmente, está inspiradíssimo. A confiança de Seferovic também deve estar a subir. Mas uns fogachos de "eficácia" não chegam para formar um "modelo de jogo"
Nestas horas cabisbaixas, o adepto lembra-se, sonha, fantasia. Leio nos jornais que o City quer João Félix- para este se juntar a Ederson, Rúben Dias, João Cancelo e Bernardo Silva -, e vejo o Benfica europeu que poderíamos ter se a Direção tivesse optado por uma estratégia de aposta na formação mais investimento para guardar os craques... No final de contas, teríamos gasto menos do que no atual registo ziguezaguista-populista-iluminado e teríamos muito mais futebol (leia-se espetáculo e resultados) para apresentar. Detesto este "pelo menos" a que estamos condenados, caros amigos, mas - a ver se, "pelo menos", continuamos a ganhar, jogo a jogo...
