VISTO DE ITÁLIA - Não basta a Ibra dizer que não é racista. Uma discriminação religiosa é igualmente grave, mesmo em tom de brincadeira
Ibrahimovic e Lukaku foram os protagonistas de um espetáculo tristíssimo que estragou por completo o dérbi de Milão de terça-feira, que, na presença de público, é o melhor dérbi do mundo.
Não pelo jogo em si ou pela emoção dos adeptos, porque nesse quesito acho que há outros jogos que batem o duelo entre Milan e Inter, mas precisamente porque é o dérbi mais pacífico de todos: adeptos das duas equipas vão juntos ao estádio, sentam-se lado e lado e tirando um ou outro episódio de claques mais agitadas, a rivalidade nunca passa dos limites.
As crianças vão ao dérbi com os pais, cada um com a sua cor de camisola, e tudo é vivido num ambiente familiar que representa a população de Milão: educada, gentil e pacífica.
Provocações com ritos religiosos, ameaças à família e até um "disparo-te na cabeça" foram algumas das frases mais tristes que já ouvi no futebol. Primeiro Ibra, depois Lukaku, os dois erraram. Mas quem mais perde são as duas equipas. Lukaku errou, porque sabe que Ibra tem a "etiqueta" de provocador colada na cabeça e não pode reagir daquela maneira. Ganhou o jogo, mas vai perder o próximo duelo da Taça contra o eterno rival Juventus por sanção.
Ibra perde, mas perde mais o Milan, que depositou nele todas as chaves desta época. Já no fim-de-semana passado, o sueco tinha gozado com os jogadores da Atalanta ao dizer a Zapata que tinha mais golos do que o número de jogos dele em toda a carreira. Uma provocação evitável, mas do calor do momento. No entanto, ao gozar com os alegados ritos religiosos de Lukaku e da mãe dele foi longe de mais. Não basta dizer que não é racista, uma discriminação religiosa, ainda que em tom de brincadeira, é igualmente grave. Ibra voltou ao campo e ainda cometeu a ingenuidade de ser expulso por uma falta descabida, deixando a sua equipa com dez jogadores. O avançado sueco nunca é banal, é inteligente e todos sabemos que é um dos melhores da história, mas falta-lhe o essencial: equilíbrio. Não pode deitar por água abaixo aquela que poderá ser a maior conquista de uma carreira: ganhar o campeonato com este Milan, pôr fim à hegemonia da Juventus, evitar o 10.º scudetto seguido da Juve, e voltar a ganhar um título na Europa aos 39 anos. Isso vale mais do que qualquer Bola de Ouro e do que qualquer provocação.
