Eis a história de um aspirante a grande goleador, a quem uma navalhada fatal acabou com o sonho de menino
Um dia o meu pai trouxe-me uma bola preta da Alemanha, a bola que mais pinchava na minha rua, acho mesmo que não houve mais nenhuma a pinchar tanto desde que existe vida. A bola fez a inveja dos meus amigos de infância, que choraram, compulsivamente, comigo num gesto solidário no dia em que, num alívio para a frente, a bola foi parar aos terrenos do Ramalhão e nunca mais foi vista.
João Félix pode chegar muito longe, se o deixarem em paz, a fazer o que bem sabe, se não encharcarem os programas desportivos com a vida dele ao minuto
O agricultor tinha o péssimo hábito de nos destruir os sonhos à navalhada. Bola que caísse no terreno daquele agricultor de Leça não mais era vista nas redondezas, apesar de todos os esforços. E não podíamos queixar-nos às autoridades porque era proibido jogar à bola na rua e o carro da Nivea, como era conhecido o Volkswagen da PSP, passava por ali de vez em quando. A bola preta ia fazer de mim um grande jogador de futebol, quem sabe, um Eusébio. Era essa a minha perspectiva, era esse o meu sonho. Que o meu nome fosse relatado na Rádio Renascença como o de um grande goleador. "Gooooooolo, do Carlitos", gritava o Artur Agostinho nos meus sonhos. Portanto, ficámos todos sem saber se eu iria chegar a ser um Eusébio no dia em que a bola preta avançou por alto para o campo do Ramalhão. Tinha um pé esquerdo, hoje desfalcado, de luxo, rematava forte, mas a bola preta é que iria dar força maior ao meu poder de fogo. Tudo isso se foi com o poder da navalha do Ramalhão.
Mais sorte teve o João Félix, que de certeza que em pequenino teve uma bola preta, de prenda, uma bola que pinchava muito, que pinchava mais do que qualquer outra, embora menos do que a minha bola preta claro. E, sim, o João Félix teve essa sorte, jogou muitos anos com a bola preta, não tinha um Ramalhão por perto, e hoje vai ter muito dinheiro para comprar muitas bolas pretas, pinchonas e vaidosas. Isto se o deixarem em paz, se não virarem a vida dele de trás para a frente, se não encharcarem os programas televisivos com a vida ao minuto, se não quiserem fazer fortunas com ele sem olhar a meios e o deixarem ser simplesmente um brilhante executante do futebol da bola preta.
