Não sou muito de me render a métricas e 11 mulheres abatidas e ceifadas na vida e na dignidade é, lamentavelmente, um número que não me diz muito mais do que "são apenas mais 11". São "apenas" 11 para acrescentar aos milhões em todo o mundo que são desrespeitadas pelo género, indignamente discriminadas no ser e no fazer, violadas, violentadas, amarradas, assassinadas, agredidas na honra, na alma e no corpo.
Mas não estou aqui para dizer o que todos sabem, mesmo os brutamontes mentais que não querem saber. Estou aqui para dizer que este é o momento em que é necessário fazer-se muito mais do que campanhas bonitas de marketing político/emocional, muito mais do que bandeiras a meia haste ou promessas de feriado para recordar o que não é, infelizmente, preciso recordar. Esta vil realidade esbofeteia-nos diariamente graças ao noticiário comum.
Porque acredito que no atual Governo e na representatividade parlamentar estão pessoas com capacidade e audácia para o fazer, está na hora de avançar com medidas concretas para proteger a existência e a dignidade da Mulher, combatendo de forma séria e eficaz a violência de que é vítima física e psicologicamente. Urge exterminar esta mentalidade mesquinha e retrógrada de uma filosofia de vida imposta por ideais político/religiosos durante séculos.
Além da necessidade de punir e criminalizar a violência de género com mais assertividade, no seio das famílias, no trabalho, na discoteca, seja onde for, é fundamental ter uma política educativa - onde tudo começa - rígida e assertiva nos parâmetros relacionados com as intolerâncias, nomeadamente as que entroncam na igualdade de género.
Há que reestruturar ou rever, sem receio sociopolítico, os currículos escolares e valorizar a educação cívica. A questão de género é basilar, não é uma tanga de discussão de café, como pretendem os arautos das mentalidades mais conservadoras, com as suas ardilosas aparências de sucesso e imagens truncadas de felicidade familiar.
"Sem medo, é preciso dizer a algumas alminhas que, para as mulheres, o conceito de "casar bem" é putedo, é prostituição cívica, é nojo moral, é uma vergonha social."
Sem medo, é preciso dizer a algumas alminhas que, para as mulheres, o conceito de "casar bem" é putedo, é prostituição cívica, é nojo moral, é uma vergonha social.
Nestas matérias formativas e educativas, é fundamental a exclusão de formadores que não defendem as tolerâncias civis ou que estejam ao serviço de práticas e filosofias político/religiosas que não protegem o papel igual da mulher e do homem na sociedade. O princípio que defendo é sempre o de intolerância aos intolerantes.
É fundamental fiscalizar e auditar o serviço público e privado, é necessário verificar continuadamente se as práticas laborais estão adequadas aos modelos de igualdade - (oportunidades, salários, carreiras e proteção específica a fatores naturais, por exemplo), sobretudo no setor privado, onde os vícios machistas são muito menos escrutinados. E, sem medo, punir, prender e retirar benefícios fiscais, seja lá o que for preciso fazer. Lá está, a necessidade de um novo e mais punitivo quadro legal para as intolerâncias.
Sim, infelizmente, é necessário um quadro legislativo com o foco na defesa de uma vítima que não são apenas estas 11 mulheres mortas desde o início do ano. É muita gente a sofrer. Muito mais do que sabemos.
"Medidas concretas, coragem para mudar e, sobretudo, não ter medo dos impactos junto das mentalidades mais conservadoras. A lei tem mesmo que castigar e punir, com sérios e rigorosos princípios de proporcionalidade, os prevaricadores "em nome do amor ou em nome da tradição".
Medidas concretas, coragem para mudar e, sobretudo, não ter medo dos impactos junto das mentalidades mais conservadoras. A lei tem mesmo que castigar e punir, com sérios e rigorosos princípios de proporcionalidade, os prevaricadores "em nome do amor ou em nome da tradição".
Obrigar os cidadãos a respeitarem a condição de Mulher, obrigar as instituições ao mesmo, sejam elas públicas ou privadas.
Legislar nesse sentido é urgente. Eu não sei fazê-lo, mas sou capaz de votar em quem o fizer.
PS: Duas notas positivas com especial realce no dia de hoje e porque isto é um jornal desportivo: os parabéns às seleções nacionais femininas e ao investimento que a Federação Portuguesa de Futebol tem feito na categoria. Parabéns, também, às mulheres que singraram no futebol profissional, com quem tive o privilégio de trabalhar, quer na Liga, quer nas sociedades desportivas. Dois casos que a restante sociedade deveria tomar por exemplo.
