DESCALÇO NA CATEDRAL - Opinião de Jacinto Lucas Pires
Depois do empate com o Santa Clara, Jorge Jesus aparece a falar de uma tal de "especulação" à volta da crise de futebol do Benfica.
A arrogância do técnico é, como se costuma dizer, um problema de base, mas esta subida de tom - destratando benfiquistas do cânone como José Augusto e Toni, e lançando um anátema sobre todos os adeptos que não são profissionais de futebol (como se a grandiosidade do desporto-rei não viesse disso, de ser um assunto universal, capaz de juntar todos à conversa numa imensa bola-mundo) -, esta subida de tom, dizia, é um sinal de desespero.
Na comparação com o Benfica de Bruno Lage, a equipa de Jorge Jesus perde em todos os parâmetros
"Estava habituado a falar só de futebol", diz o técnico, como se alguém lhe tivesse pedido que comentasse o ataque ao Capitólio dos E.U.A. Pois falemos de futebol. Na edição de quarta, O Jogo punha a coisa em números: na comparação com o Benfica de Bruno Lage, a equipa de Jorge Jesus perde em todos os parâmetros. Menos pontos, menos golos marcados, mais golos sofridos. E isto, com mais do dobro do investimento em contratações. (Um sinal, aliás, de que a estrutura do Benfica sente a crise futebolística é na quantidade de novas contratações fechadas, negociadas ou anunciadas.
Se há "especulação", será talvez no sentido de "especulação financeira", não?...) Sim, os números de desempenho desta equipa são indesmentíveis, mas nem é preciso queimar as pestanas com eles para ver que a equipa não joga o que deve jogar. Qualquer arquiteto, advogado, escritor, jornalista, jogador ou treinador vê isso. Mas, vá lá, Jorge Jesus também disse uma coisa certa: "No Benfica, só ganhar não chega." É verdade. O que quer dizer - primeiro - que não podemos empatar, como aconteceu em São Miguel, e - segundo - que temos de jogar mais do que fizemos na vitória com o Tondela.
Num New York Times do ano velho, saiu um artigo sobre o Midtjylland, da Dinamarca, como laboratório do futebol do futuro. Traz questões interessantes - saber, por exemplo, se é possível definir, como acontece no basquete da NBA, zonas ótimas de remate e passes quase automáticos; se adianta ter um treinador especializado em lançamentos de fora; se uma câmara de eco psicológica ajuda os jogadores -, mas trago para aqui outra ideia.
Com tantas operações de milhões, tanta conversa sobre o "modelo de negócio", tanta arrogância contra os críticos, não será isso que falta a este Benfica - "falar futebol"?
Depois de todo o paleio sobre um futebol científico, estes especialistas em dados, trabalho específico, jogadas ensaiadas, acabam por conceder que isso é tudo muito importante, sim, mas, se não se souber "falar futebol", não serve para nada. Sem isso, os jogadores não jogam com confiança, alegria, iniciativa e a equipa não se comporta como um "todo". Com tantas operações de milhões, tanta conversa sobre o "modelo de negócio", tanta arrogância contra os críticos, não será isso que falta a este Benfica - "falar futebol"?
