DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
Pouco a pouco, as coisas parecem voltar ao normal: com as chegadas de Pote, Inácio e Porro (a lesão terá sido mais um susto do que outra coisa), o Sporting aponta a uma retoma da consistência perdida, provando ao mesmo tempo a valia de certas alternativas que ainda não haviam tido oportunidade de se mostrar devidamente, como Bragança e Ugarte, cujo desígnio de se afirmarem esbarra na tremenda qualidade da dupla Palhinha/Matheus Nunes.
Ali, porém, sabemos hoje que se um dos titulares se lesionar não cai o Carmo nem a Trindade - há respostas de nível prontas a ser dadas.
O mesmo não se pode dizer da lateral esquerda, onde a orfandade de Nuno Mendes continua a pesar. Vinagre ataca muito bem a profundidade, envolve-se nas jogadas ofensivas, ganha a linha ou mete para dentro e assiste com imensa facilidade, mas não defende como se exige, ainda.
Na direita, embora Porro seja uma coisa e Esgaio outra, também hão há razões para alarme. O eixo do ataque é onde se sente mais a escassez, apesar de Tiago Tomás estar a crescer e ter agitado as águas de tal forma no Restelo que poderia ter saído de lá com o dobro dos golos marcados. Pote e Sarabia serão naturalmente os donos das alas, à frente, e cabe a Jovane e a Nuno Santos, partindo do banco, acrescentarem dinâmicas novas ao jogo. Cá atrás, Inácio, Coates e Feddal compõem um trio defensivo de qualidade, onde o uruguaio se destaca como patrão, centro de gravidade, o jovem português cresce não apenas à sombra dele mas à sua própria luz, com uma capacidade auspiciosa de desarme, de sair a jogar e de escolher o momento para efectuar passes precisos de ruptura, e o marroquino se mantém mais ou menos certinho, apesar de volta e meia perder o foco e entregar mal a bola ou abordar displicentemente um ou outro lance.
Contra o Belenenses, gostei de ver os menos utilizados a fazer pela vida. Já falei de Tomás, Bragança e Ugarte, mas posso também mencionar Esteves e Virgínia, o primeiro a apalpar terreno, o segundo a marcar território. A gestão de Amorim, volto a dizer, tem sido inteligente, e às vezes o essencial do seu discurso está no aparentemente acessório. Veja-se o caso de Goulart: "Não era um dos jogadores que mais se destacavam nas camadas jovens, mas o passado não me interessa, interessa-me o momento, e é uma mensagem que quero enviar para os miúdos". No último domingo falei aqui de que a formação sportinguista carecia de craques transbordantes, e Amorim encontrou o argumento certo para me calar. Ainda assim, o ideal é reunirem talento extraordinário, ou classe pura, e vontade de trabalhar, como me parece ser o caso de Bragança, a quem volto para terminar esta crónica. Disse dele, há muito tempo, que poderia tornar-se o nosso Pirlo, e hoje reitero a previsão: permite suprir com benefício a falta de João Mário, porque é mais inteligente ainda a pautar o jogo, arrisca mais e erra menos no passe, está a ganhar corpo e capacidade de choque e tem uma elegância de príncipe que catapulta o futebol para uma dimensão estética imprescindível ao encanto que, apesar de toda a porcaria que tem acontecido à sua volta, vai conseguindo manter.
