Dois momentos para a memória do futebol: a perda de Neno e o agarrar à vida de Eriksen. Aquela roda de irmãos é assombrosa.
Há imagens que entram cérebro adentro de tal forma que parece que ali ficam para sempre, como que esculpidas na parte interior do crânio. Em poucos dias, dois momentos arrepiantes no mundo do futebol: a perda de Neno e o agarrar à vida de Eriksen.
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Não tive o privilégio de privar com Neno, antigo guarda-redes e figura incontornável do atual Vitória, como a maior parte dos meus camaradas de profissão. Mas julgo que o estarei a honrar contando o seguinte episódio. Quando a sombria notícia do seu falecimento nos caiu nas mãos, corri o arquivo digital à procura de fotografias suas para, o mais rapidamente possível, disponibilizar a informação no site de O JOGO. Quando há óbitos, pede-nos o critério clássico um certo comedimento e recato na escolha da imagem. E procurei, procurei... bem procurei imagens comedidas de Neno. Dezenas, centenas em poucos minutos em ecrãs múltiplos e em todas parecia estar em festa, toda a vida de Neno transparecia alegria. Quase não temos fotografias de Neno- entre as milhares catalogadas com o seu nome - sem o seu contagiante sorriso.
Vi todos os vikings do meu imaginário juvenil naquela roda de irmãos, unidos como rochas contra as ondas da morte
O segundo momento referido é inesquecível, é telúrico, é assombroso. São minutos infindáveis à espera de um sinal de vida de Eriksen, o dinamarquês. Vi todos os vikings do meu imaginário juvenil naquela roda de irmãos, como rochas imensas de um fiorde contra as ondas da morte. Parece que Valhala vai ter que esperar pelo dinamarquês, jogador do Inter de Milão.
Infelizmente, como acontece muitas vezes, há sempre um aproveitamento pornográfico da dor e da emoção que um momento como este gera. O que é sempre lamentável. Creio ter sido para evitar esse aproveitamento que aquela equipa se entrelaçou, ao mesmo tempo que sentia uma dor inacreditável, para oferecer privacidade e dignidade a Eriksen. Uma roda mágica.
