RUGIDOS DO LEÃO - A crónica semanal de Samuel Almeida
O desejo do Benfica já se concretizou. Em Braga o Sporting teve direito ao Jorge, com seis amarelos na primeira parte, em Famalicão deu gosto ver o George, a apitar à inglesa, critério largo e um VAR atento, exceto na cotovelada de Taarabt.
Um país que teima em fechar os olhos às revelações de Rui Pinto
A equipa benfiquista tem uma espécie de salvo-conduto, estando sempre a salvo de qualquer cartão vermelho. Aliás, é patético ver Porto e Benfica digladiarem-se pelos maiores benefícios da arbitragem depois de 40 anos de vergonha em Portugal, um país que teima em fechar os olhos às revelações de Rui Pinto.
É a chamada justiça seletiva. Igualmente patético o penálti do Porto na Taça. Já o insolvente Salvador também quis dar o ar de sua graça esta semana, fez bem o Sporting em não responder. Mas fará melhor em resgatar Palhinha no final do ano e não fazer mais negócios com a filial benfiquista de Braga.
Em relação ao Sporting fica aqui um abraço de solidariedade a Miguel Afonso e Filipe Osório de Castro. Não podemos aceitar qualquer forma de violência em Alvalade, muito menos perante os órgãos sociais do clube, sejam eles quem forem. Mas fica, igualmente, o recado para Varandas e sua administração, pois que o foco do clube não é a gestão de claques e muito menos o aproveitamento despudorado destes episódios lamentáveis para escamotear e branquear o fracasso absoluto da gestão do clube, em particular da gestão desportiva.
Do presidente do Sporting Clube de Portugal espera-se a capacidade de agregar, apontar o caminho, apresentar soluções e resultados. Mesmo no tema das claques cabe a esta administração apresentar publicamente as condições para que seja retomado o diálogo. Esta escalada de agressividade dificulta e muito a retoma desportiva e a implementação de qualquer estratégia duradoura.
Uma palavra para a decisão da MAG, a qual abriu um precedente perigoso. Com efeito, continuo a não vislumbrar qualquer norma - seja nos estatutos, no Código Civil ou no Código das Sociedade Comerciais - que confira à MAG qualquer poder de sindicância sobre a existência de justa causa para a destituição dos órgãos sociais.
Esta Mesa e, em particular, Rogério Alves ficam com a obrigação moral de encontrar forma de dar a voz aos sócios
Se é verdade que o conceito de justa causa carece de ser densificado e fundamentado, não cabe à Mesa fazer esse pré-juízo, pois que essa apreciação é para ser efetuada pela Assembleia Geral. E a exigência de justa causa e sua fundamentação justifica-se, pois, a decisão soberana adotada pelos sócios do clube - tal e qual acontece na destituição de um gerente com os mesmos fundamentos numa sociedade comercial - é passível de posterior controlo jurisdicional.
Aliás, seria absurdo ter a Mesa a apreciar a justa causa da sua própria destituição. A justificação adicional - a oportunidade da realização desta mesma AG - não colhe, pois que não nos cabe interpretar os estatutos do clube à medida de juízos de oportunidade ou conveniência. Se os estatutos estão errados - e estão - cabe à Mesa promover uma reforma desses mesmos estatutos, dando a voz aos sócios. Nestas matérias, como na vida há que ser coerente e não abrir precedentes interpretativos que aliás, no tempo de Godinho Lopes, já foram objeto de apreciação e recusa judicial. Como já tive oportunidade de afirmar, não creio que haja justa causa de destituição, mas essa é apenas a opinião de um sócio e jurista e não é o tema principal.
Face a esta decisão, esta Mesa e, em particular, Rogério Alves ficam com a obrigação moral de encontrar forma de dar a voz aos sócios e, sobretudo, encontrar forma de contribuir para uma discussão serena e plural sobre os graves problemas estruturais do clube. Sendo o PMAG o máximo representante dos sócios, cabe-lhe não ignorar os sinais de divisão e profundo descontentamento de uma parte da massa associativa.
Fechar os olhos é dar razão a todos aqueles que reclamam contra o distanciamento destes órgãos sociais face aos seus adeptos. Fica o repto a Rogério Alves. Uma palavra de apreço para o artigo de Nuno Saraiva, com diversas sugestões de alteração dos Estatutos. São muitas as vozes a reclamar uma revisão estatutária, acompanhada de uma revisão do modelo de governo do clube e SAD.
Uma nota final para os adeptos da venda do capital social da SAD. A todos sugiro que acompanhem com atenção o que se passa com o Manchester United, a insatisfação dos adeptos e a forma como o gigante inglês está refém de uma família detentora do seu capital. Por vezes é preciso cuidado com o que se deseja.
