É uma felicidade sentir que a cultura do Sporting é conduzida no sentido de integrar a pessoa
DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
Nos tempos estranhos em que vivemos, já se tornou um chavão dizer que o futebol é um negócio, alegadamente com o propósito de o salvar, mas poucos parecem lembrar-se de que fora dele vivem aqueles de que ele se alimenta: os espectadores.
Se excluirmos o mundo sinistro das apostas, que em pouco ou nada beneficia o jogo, não me consta que o futebol seja uma fonte de rendimento para o comum mortal que a ele, por paixão, dedica parte da sua vida.
Não cumpre, pois, ao negócio definir o futebol, mas sim ao futebol definir o negócio. E se o futebol, mesmo enquanto negócio, se alimenta dos espectadores, então o futebol é um espectáculo. Urge defendê-lo nessa dimensão, com a responsabilidade acrescida de quem entende o relvado como tabuleiro onde as leis da vida se replicam, versão viva de um quadro de escola a partir do qual muitos miúdos, ainda encantados pela magia que resiste ao negócio, podem aprender conceitos importantes para a estruturação de uma ideia de sociedade, cada vez mais ameaçada, onde tanto a adversidade como o adversário sejam meramente circunstanciais.
O resultadismo reduz e polariza, pelo que o vejo como um aliado do extremismo, em cuja linguagem pobre não cabe uma ínfima parte da miríade de emoções e sentimentos que a experiência humana concede. E, nesse sentido, há que integrar os jogadores como pessoas, pessoas que jogam, em vez de os instrumentalizar como máquinas ao serviço de uma obsessão tendencialmente individualizadora que alastra hoje como um vírus: ganhar, seja a que custo for. Um clube, uma equipa, um grupo de trabalho, não é a ideia de um indivíduo, mas uma comunidade em que há princípios, meios e fins partilhados pelos que a compõem. A disciplina, enquanto reguladora do compromisso, tem o seu papel na equação, mas a jusante da paixão, da alegria, da vontade, tudo coisas que a liberdade potencia. No meu modo de ver o jogo e a vida, não é a obrigação o que deve agregar espíritos em torno de um desígnio, mas a confiança. O que por aí mais vemos, no entanto, são problemas surgidos de quando um jogador, fora do seu trabalho, se exprime livremente sobre futebol, política ou outro assunto propenso a antagonismos, como qualquer pessoa, como a pessoa que é. Proibi-lo de o fazer é atentar contra direitos seus, é mutilá-lo.
O recente protesto contra a criação de uma Superliga Europeia talvez não tivesse procedido se os jogadores, um pouco por todo o continente, não ousassem rasgar a placenta da obediência cega a quem lhes paga. Foram seres humanos a protestar, foi um grito de sobrevivência do futebol contra o negócio que o explora e asfixia. Enquanto sportinguista, é para mim uma felicidade sentir que a cultura do clube está a ser conduzida no intuito de integrar a pessoa. Percebe-se pelo ambiente que se vive, percebe-se quando se vê que, a cada contrato de formação ou profissional celebrado, é mencionada pelo próprio jogador a importância do clube no seu crescimento humano, percebe-se ainda em conteúdos mediáticos como o podcast ADN de Leão (cujo registo até nem aprecio, por ser cativo daquela necessidade de ter piada que estraga qualquer piada), onde os atletas se apresentam descontraídos, falando das suas vidas, das experiências com os companheiros, de coisas que nos aproximam deles. O futuro do futebol, mais do que na procura cega da vitória, defende-se assim. A verdade do futebol, mais do que no escrutínio do caso de arbitragem, defende-se assim. O futebol a quem o ama.

