DRAGÃO DO SUL - A opinião de Paulo Baldaia, aos domingos n'O JOGO.
Qualquer outra atividade económica que tivesse o nível de falcatrua que tem o futebol profissional mereceria de imediato intervenção do regulador, investigação do Ministério Público e tomada de posição do Governo.
O que não é admissível é que Fábio Veríssimo, depois de ver Nanu inconsciente no chão, não tivesse sequer ido ver as imagens
No caso do futebol, o regulador tem culpas no cartório, o Ministério Público não consegue dar conta do recado, com tantos casos que tem em mãos, e o representante do Governo (secretário de Estado do Desporto) é ele próprio um trambiqueiro, porque entende sair beneficiado com o silêncio, quando está em causa o clube do chefe.
Não me inibem com o argumento de que o clube de que sou o adepto aldrabou nos anos noventa do século passado. O que foi investigado foi investigado e o que teve de ser julgado foi julgado, mas, mais do que isso, é suposto vivermos num Estado de Direito em que a alegada prática de crimes no passado não justifica a alegada prática de crimes no presente. Só num país em que há "um clube como Estado soberano" (trabalho jornalístico no "New York Times" em abril do ano passado), é possível que, com tudo o que se sabe, tudo continue na mesma.
Quem me acompanha, nas crónicas que aqui escrevo aos domingos, sabe bem que venho alertando há semanas para um "modus operandi" que passa, desta vez, por utilizar os critérios disciplinares, com evidente duplicidade, para beneficiar um clube e prejudicar os outros, com particular destaque para o FCP, na luta pelo título. Não sendo possível recordar os jogos desde a primeira jornada numa crónica, vale a pena revisitar o passado recente. Dei conta do segundo amarelo que ficou por mostrar a Nuno Tavares e Pizzi (consensual entre os ex-árbitros) no jogo em que Taremi foi (bem) expulso, como dei conta da expulsão a que foi poupado Palhinha no jogo com o FCP, ao cortar uma bola com a mão (segundo amarelo), mas foi castigado com um amarelo forçadíssimo, minutos depois de entrar em campo contra o Boavista, para não poder jogar com o Benfica. Aconteceu o mesmo no jogo para a Taça de Portugal, com o Gil Vicente, com dois duplos amarelos que ficaram por mostrar e um vermelho direto (Taremi isolava-se com apenas o guarda-redes pela frente) aos jogadores de Barcelos.
Eu considero que é penálti, porque houve evidente negligência do guarda-redes na forma como abordou "às cegas" este lance
A semana passada escrevi que "a duplicidade de critérios vai agravar-se à medida que o campeonato se aproximar do fim e for preciso puxar pelos Donos Disto Tudo. Dito e feito, o jogo no Jamor, com a escolha de Fábio Veríssimo (árbitro cuja decisão tirava Palhinha do jogo com o Benfica), dava para perceber a dificuldade acrescida que teríamos naquele jogo. Deixar o adversário do FCP jogar à margem da lei sem a devida punição voltou a ser o critério. Sithole escapou por duas vezes ao segundo amarelo (minutos 58 e 67) e Calila, aos 72 minutos, já com um amarelo, escapou ao segundo depois de uma "varridela" a Corona. Houve um penálti claro, já nos descontos, na sequência de um canto, por empurrão de Taira sobre Pepe, mas o escândalo deste campeonato será sempre a jogada ao minuto 86, quando Kritciuk deixou inanimado Nanu.
Aceito, tenho de aceitar, como argumento para a discussão que o choque é fortuito e resulta de dois jogadores que correm de lados opostos para o mesmo ponto. Eu considero que é penálti, porque houve evidente negligência do guarda-redes na forma como abordou "às cegas" este lance, mas bastava que a equipa de arbitragem (com o VAR incluído) não tivesse cometido todos os outros erros para o resultado final ser outro. O que não é admissível é que Fábio Veríssimo, depois de ver Nanu inconsciente no chão, não tivesse ido sequer rever as imagens para saber o que se passou. Isso revelou total insensibilidade pelo sofrimento de todos os jogadores com o mal que aconteceu ao jogador do FCP e, sobretudo, um profundo desrespeito por Nanu. Por isso, assinei uma petição pedindo a "erradicação do Sr. Fábio Veríssimo de toda e qualquer competição" (peticaopublica.com). Não resolve o problema da mentira que começa a ser este campeonato, mas é preciso estar sempre a recordar o que nos disse Mário Soares: "Só é vencido quem desiste de lutar".
