DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz
A minha equipa está oscilante, precisa de acreditar que aquilo que fez no ano passado não foi fruto do acaso ou da sorte que Rúben Amorim diz ser sua amiga. A insegurança nota-se no acusar da falta de garantias de brilho como Pote ou Coates.
Ainda bem que isto está a acontecer no início do campeonato, porque permite partir de baixo, embora se venha de cima, e quem parte de baixo só pode subir. Há que dar força e incentivo
Ainda bem que isto está a acontecer no início do campeonato, porque permite partir de baixo, embora se venha de cima, e quem parte de baixo só pode subir. Há que dar força e incentivo ao treinador, que não procura desculpas esfarrapadas para camuflar o momento do seu processo, ele expõe o que se passa transparentemente, embora aqui e ali ainda tenha a tendência de defender, porque acha que assim defende, os elementos circunstancialmente mais vulnerabilizados, como é o caso de Paulinho.
Está à vista de toda a gente que Paulinho falha naquilo que dele se espera: os golos. Mas esse terá sido um dos encaixes mais difíceis de Amorim: não dispor de mais ninguém. Tiago Tomás está ainda em formação, também se vê à légua, e depois dele não sobra mais nada a não ser um matador fora do sítio, Pote. Ficar só com Paulinho fez o técnico vacilar nessa franqueza que ele demonstra a cada momento. São equilíbrios lixados, há a componente pessoal, que nos leva por vezes a ser paternalistas, sobretudo quando nos sentimos implicados no que a pessoa está a viver, e uma visão mais de conjunto, delegando em cada um a responsabilidade de trabalhar para o todo, de servir o todo.
Amorim é o primeiro a dizer que está sempre a aprender, e ele sabe que a aprendizagem não se circunscreve à metodologia do jogo, ela é holística e global. Eu, como sportinguista, sinto-me honrado em ter ali alguém que, sabendo do seu valor, não se faz maior do que é, não fomenta guerras e não projecta imagens ilusórias para garantir mais uns tempos de paz. Parece-me que, hoje, pelo menos dos três grandes, e muito graças a Rúben Amorim, o Sporting é o clube mais em carne viva, sem máscaras ofensivas ou embrulhos pomposos. Esse é um sinal que devemos dar ao mundo, quando todos já estamos pelos cabelos com o mergulho a fundo da publicidade nas entranhas da mentira. Um jogador não tem de prometer golos, tem de meter golos. E isso trabalha-se, a matéria prima existe e precisa apenas de se sujeitar às leis do crescimento, com o carinho dos adeptos.
Veja-se um caso que, para mim, assume níveis de dificuldade particulares: Jovane Cabral. É um portento físico que não tira partido disso, cobra bolas paradas como ninguém na equipa mas não o demonstra e, sendo bom no um para um, não sai limpo de um único adversário. Já o fez, por que não o faz? Amorim conhece-o muito melhor do que nós e foi avisando: Jovane precisa de carinho. A amplitude exibicional do cabo-verdiano parece directamente proporcional ao seu estado anímico. Apoiemo-lo, então, para que se torne mais forte. É a nossa vez, a vez dos adeptos, e isso felizmente está-se a notar, de entrar em campo, de treinar e jogar, transmitindo a todo e qualquer elemento do plantel a nossa energia de incentivo, de fé. Creio que assim, mais cedo do que tarde, a minha equipa deixará de estar oscilante.
