Um artigo de opinião de Domingos Castro, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo
A resiliência do atletismo português foi colocada à prova nestas últimas semanas. A intempérie que assolou a região Centro deixou marcas pesadas em comunidades inteiras e atingiu também o coração da nossa modalidade, com danos severos em infraestruturas desportivas, como o Expocentro de Pombal, onde funciona uma das poucas pistas cobertas do país. Ali estavam agendadas várias provas nacionais desta época de inverno, fundamentais para o crescimento, preparação, motivação e sonho de centenas de atletas. De um momento para o outro, esses planos ficaram suspensos, obrigando a medidas urgentes para transferir as provas de local. A nossa responsabilidade, porém, não podia ficar em suspenso.
Perante esta realidade, a Federação Portuguesa de Atletismo avançou com uma imediata ação solidária para apoiar a Associação Distrital de Atletismo de Leiria. Canalizámos as receitas de inscrições de competições de pista curta, mobilizando clubes e atletas e lançando um apelo público à união do atletismo nacional para ajudar a reerguer quem perdeu tanto. O atletismo não pode medir-se apenas em tempos, marcas ou pódios, mede-se também na capacidade de estar presente quando mais é preciso.
Este esforço coletivo para manter o calendário competitivo só foi possível graças à extraordinária disponibilidade e empenho de várias entidades. A Associação de Atletismo de Braga e a Câmara Municipal de Braga acolheram, com enorme sentido de missão, um elevado número de provas, num esforço logístico, humano e até financeiro digno de registo. Também a Associação de Atletismo de Lisboa assumiu um papel fundamental ao receber diversas competições no CAR do Jamor, mostrando que, quando é preciso, o atletismo nacional sabe unir-se e encontrar soluções.
Quase em simultâneo, fomos confrontados com a perda de Fernando Mamede, um dos maiores de sempre do nosso atletismo. Fui seu colega durante muitos anos, treinámos lado a lado várias épocas. Era um companheiro excecional, um atleta de classe mundial, um homem de enorme sensibilidade. Foi recordista do mundo, olímpico em três edições e uma referência eterna da modalidade. Fez coisas que poucos conseguiram no seu tempo e não foi por acaso. Foi trabalho, coragem e amor ao atletismo, foi resiliência e capacidade de voltar a erguer-se a cada queda.
Dois momentos distintos, mas dolorosos. Ambos nos lembram da fragilidade das estruturas e da vida, mas também da força que nasce quando estamos unidos.
Mas mesmo em tempos difíceis, há razões para olhar em frente: este fim de semana, em Albufeira, as equipas portuguesas voltaram a brilhar na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, conquistando medalhas de ouro e de prata; também em Braga decorreu um excecional Campeonato Nacional Sub-18 de Pista Curta, rico em recordes, mostrando que o atletismo nacional continua vivo, forte e com muito futuro.

