RUGIDOS DO LEÃO - A opinião de Samuel Almeida
O Sporting foi um dos grandes beneficiados da pandemia.
Edifício futebolístico do clube tem de ser reerguido e Rúben Amorim parece ser o homem certo. Discurso fluido e ideia de jogo clara
A paragem no campeonato e a ausência de público beneficiam o lançamento de jovens e permitiram a Rúben Amorim conhecer o clube, a estrutura e preparar a próxima época em competição. Uma circunstância irrepetível esta de competir sem qualquer tipo de pressão competitiva e com o tribunal de Alvalade silencioso. Para miúdos que estão agora a começar na alta roda do futebol seria difícil pedir melhor. Convém manter os pés assentes no chão e perceber que a próxima temporada será bem mais complexa, pois o clube tem de atingir a Champions. De qualquer forma, e ao contrário do que sucedera até agora, parece haver um rumo e uma política desportiva clara.
Como sempre afirmei, seria bem mais fácil pedir tempo à massa associativa do clube com uma equipa feita em parte da formação, do que com jogadores como Eduardo, Bolasie, Jesé e outros que Rúben Amorim tratará de despachar no final da época. O edifício futebolístico do clube tem de ser reerguido e Ruben Amorim parece ser o homem certo. Discurso fluido, uma ideia de jogo clara, controlo do plantel e uma personalidade cativante. Aguardemos para ver como reage quando surgir um ciclo negativo, mas até agora tem convencido a toda a linha. Já agora bela ideia a de homenagear antigos craques de Alvalade no jogo com o Gil Vicente. Seria, aliás, uma bela ideia a de criar uma réplica das camisolas dos anos 70/80 com alguns destes nomes que deslumbraram nos relvados lusos.
Para os defensores da venda da SAD, recomendo que leiam as declarações da filha de Peter Lim, o homem que controla o Valência. Clube histórico em Espanha, o Valência virou um entreposto de jogadores e perdeu o comboio da frente no futebol espanhol, reduzido a um papel de menoridade. É este risco de entrega do controlo do clube - um caminho irremediável e sem volta - contra o qual me bato e me baterei no futuro. O Sporting Clube de Portugal e a sua SAD são apenas uma entidade e pertencem e pertencerão à sua massa associativa. E não precisam de invocar que uma andorinha não faz uma primavera, pois os exemplos do estilo do Valência são abundantes.
Confesso a minha perplexidade com a iniciativa destes órgãos sociais em lançar, não uma profunda reforma estatutária, mas uma alteração destinada apenas a introduzir o voto eletrónico à distância. Dir-me-ão muitos que o que se pretende é aumentar a participação dos sócios na vida do clube - o que no limite até poderá ser verdade - mas na verdade, não passa de puro oportunismo para silenciar e retirar espaço de manobra a uma minoria ruidosa que existe em Alvalade. Sejamos claros: a vida associativa do Sporting vive dividida entre uma pequena fação ultraconservadora e outra mais radical e popular/populista, estando estas duas na origem das candidaturas de Godinho Lopes e Frederico Varandas por um lado, e Bruno de Carvalho por outro. São estes dois polos opostos que se batem e dividem o clube perante a tal maioria silenciosa.
Maioria silenciosa que tanto dá 90% dos votos a José Eduardo Bettencourt, como reelege Bruno de Carvalho com uma larguíssima maioria ou o destitui com 71% dos votos. Ora, se é verdade que o clube precisa de uma profunda reforma estatutária, só consigo fazer uma leitura desta iniciativa e de quem se recusou a participar num evento independente para discutir o clube (e onde este tema esteve em cima da mesa). Essa leitura é de que aproveitando a acalmia do clube e dos ventos de esperança trazidos por Rúben Amorim - uma excelente notícia para todos os sportinguistas - pretende-se esvaziar a oposição personalizada pelos apoiantes de Bruno de Carvalho, diminuindo os riscos de uma minoria de bloqueio em Alvalade. Há muita gente que não entende que o fenómeno Bruno de Carvalho não se combate com a ostracização de seus apoiantes, mas sim enfrentando o fenómeno de frente promovendo a união no clube e o envolvimento de todos.
E combate-se criando as condições para que quem seja eleito disponha de uma legitimidade reforçada pela força de uma maioria absoluta de votantes e votos. Frederico Varandas é o presidente legítimo do clube, mas a sua legitimidade ficou enfraquecida por dispor de menos votantes que a lista de Benedito. É por este motivo que irei lançar um movimento de sócios e recolha de assinaturas para incluir na AG de alteração dos estatutos um ponto adicional para aprovação de uma segunda volta eleitoral. Só não quer esta solução quem se quer eternizar no poder ou quer dividir para reinar. Simples.
Nota final. A semana passada critiquei o CNID por não se ter pronunciado sobre as palavras de Bruno Lage. Recebi uma mensagem de Manuel Queiroz a insurgir-se contra essa minha omissão. Fica aqui o meu pedido de desculpas a todos os leitores e ao próprio sindicato.
