RUGIDOS DO LEÃO - Um artigo de opinião de Samuel Almeida.
1 Coates foi durante muito tempo o patinho feio do Sporting para uma parte da massa associativa leonina.
A esta realidade, o uruguaio respondeu com 230 partidas de leão ao peito, 22 golos - um dos centrais mais goleadores da história leonina - uma Taça de Portugal, três Taças da Liga e uma Supertaça.
A este currículo interessante, Coates junta 40 internacionalizações pelo Uruguai, 56 jogos na Premier League e uma Copa América. O uruguaio, não sendo um prodígio, é um atleta fiável - mereceu a confiança de todos os treinadores em Alvalade - competitivo, discreto, disciplinado e voz respeitadíssima nos corredores e balneário de Alvalade.
Merece, sem dúvida, a braçadeira de capitão e merece o respeito e admiração de todos os adeptos leoninos. O futebol e uma equipa não são feitos apenas de talento puro, pois a estes há que juntar o caráter, a lealdade, a seriedade no trabalho e o respeito de colegas e adversários. Coates tem isso tudo e merece os dias felizes que vive em Alvalade e o reconhecimento que vem granjeando na grande época que está a realizar. Sendo um atleta exemplar, diria que Coates representa de forma digna os valores e o ADN do Sporting Clube de Portugal.
2 E se Coates representa os valores leoninos, Sérgio Conceição representa bem a cultura portista. Julgo, aliás, que o treinador portista tem sido vítima de um coro de críticas que, em bom rigor, não lhe são dirigidas. Se Sérgio se comporta repetidamente de forma agressiva e antidesportiva é porquanto quem lidera o clube há mais de 30 anos assim o permite. O problema não está num treinador híper competitivo, mas quem há décadas vive do antagonismo, do ódio, da divisão e de um regionalismo bacoco como forma de mobilização coletiva. Basta ver a reação após a eliminação da Juventus. Não foi vivido como um momento de afirmação portista, mas antes como mais uma espinha na garganta dos seus rivais, e se necessário, do capitão da seleção nacional. E aqui reside o problema. Os dirigentes portistas sabem bem que o seu clube é o mais fraco dos três grandes em termos de implantação nacional e sua estratégia tem sido, sucessivamente, de dividir para reinar.
Assim foi com João Rocha, Dias da Cunha ou mais recentemente Bruno de Carvalho. Sem nenhum aliado no Sul, o FC Porto não se consegue afirmar, aqui residindo, também, a razão do declínio leonino, cegado pela secular rivalidade com o Benfica. A afirmação e cultura portista passa por uma estratégia de confronto permanente, seja com adversários, árbitros, ou quem quer que se lhe atravesse à frente. Sérgio sabe bem que esse é o combustível aditivado que alimenta a famosa garra e mística portista. É um ADN que mistura um complexo regional de inferioridade com um desejo legítimo de afirmação. Que mistura vitórias extraordinárias internacionais com episódios degradantes como o guarda Abel, as viagens de árbitros, as frutas, as meias de leite, Adriano Pinto e a AF Porto entre tantas outras figuras e episódios. Talvez Adriano no hospital quando assinou a rescisão ou Paulo Assunção possam falar com maior propriedade do que é feito o ADN portista. Alguém falava esta semana em hipocrisia nas críticas feitas a Sérgio Conceição, e julgo que, em parte tem toda a razão, pois a culpa não está, exclusivamente, no treinador portista, o qual, aliás, tem conseguido resultados extraordinários em condições adversas. A hipocrisia está em bom rigor em esquecer os últimos 30 anos.
3 O Sporting apresentou o projeto Cidade Sporting esta semana. É uma ideia interessante, a revitalização da área circundante do estádio com espaços de lazer e cultura. Mas nada disto terá grande efeito se não for levada a cabo uma completa transformação digital do clube, com a criação de novas experiências para adeptos e sócios do clube. E nesse aspeto, este Projeto pouco ou nada parece acrescentar, sendo que do Plano Estratégico 20/22, encontra-se quase tudo por realizar. A pandemia não ajuda, por certo, mas antes de lançar novas ideias, seria bom implementar as que foram anunciadas há um ano atrás.
Nota final. Haverá muitos consócios meus que não vão gostar do que vou escrever a seguir, mas é o preço a pagar pela coerência. A solução encontrada pelo TAD para o caso Palhinha resulta numa solução jurídica indesejável para a competição. É tão absurdo castigar um jogador após um erro grosseiro de um árbitro, como sustentar uma isenção sancionatória que nenhum outro atleta poderá beneficiar. Não ficaria bem como a minha consciência se defendesse o oposto.
