DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
A paragem do campeonato torna mais ampla a paisagem do desporto. Uma pessoa pensa em ver modalidades amadoras, jogos de sub-23, juniores e por aí abaixo, até programas de entretenimento com atletas do Sporting, e as perguntas espreitam, para ver quem está de visita.
Sei bem que não é a coisa mais justa do mundo, isto de uma pessoa pousar sobre os campos e pedir satisfações pelas colheitas a quem os trabalha todos os dias, mas perguntar também não ofende, e então aí vai a primeira das duas que me surgiram hoje: o foco visível no futebol está a ter efeito negativo nas modalidades amadoras, em termos de um desinvestimento ou de alguma desmotivação das equipas?
É que, se repararmos, só o futsal mantém o élan, e com sinais de não querer ceder, como a recente aquisição de um espanhol que foi considerado este ano o 8.º melhor jogador do mundo. De resto, no basquetebol deixámo-nos ultrapassar pelo Benfica; no hóquei tivemos derrotas humilhantes e estamos sem chama; no andebol continuamos abaixo do Porto; e no voleibol não arranjamos maneira de incomodar os rivais da Luz. Convinha, talvez, nesta altura, Varandas ou alguém das amadoras comunicar o que se espera de cada um daqueles projectos e se há estratégias claras a ser seguidas. Pegando no basquetebol, por exemplo: se tirarmos Travante, não sobra um colectivo que deveria ser mais forte? É para nos afirmarmos a nível Europeu ou queremos apenas andar por cima cá dentro? Face aos indícios que vou tendo, gostava de saber esse tipo de coisas.
E agora a outra pergunta: o tão falado modelo de formação assente no jogador deve fazer-nos, a nós adeptos, relativizar o insucesso colectivo das camadas jovens do Sporting? Eu agradeceria se me explicassem por que razão a formação apontada a preparar individualmente elementos capazes de servir a primeira equipa num futuro mais ou menos próximo colide com a demonstração colectiva e competitiva da qualidade desse trabalho. Entendo que muitos futebolistas jogam em escalões acima da sua idade e isso implica que limem precocemente algumas arestas que têm de ser expostas em campo, com consequências às vezes inevitáveis nos resultados. Acontece também a FC Porto e a Benfica, claro, mas muito menos - e é nesse lugar da garganta que a espinha se encrava. Agora já saiu.

