Há uma enorme tentação em personalizar a eliminação da Juventus em Cristiano Ronaldo. Mais do que injusto, é pouco desportivo.
Muitas vezes me parece que a memória de um adepto de futebol é densa como um queijo, mas quando se trata da memória de um adepto de clube, é esburacada como um Emmental, que também é um queijo, mas cheio de buracos. Sim, estou a distinguir o adepto de futebol do adepto de clube.
O internacional português tinha mais importância mediática com origem na capital espanhola do que a própria família real, exceto quando morria um elefante, animal que vale a metáfora dos que não esquecem.
Sendo tudo argumento-queijo, o que esburaca, então, a memória do adepto? E até isto parece uma espécie de pergunta para queijo, que é uma "privada" só para quem jogou Trivial Pursuit. Na minha opinião, o que esburaca essa memória-tipo é a intensidade com que o adepto vive vitórias ou derrotas semana a semana, conquistas ou perdas época a época, e até a sensação que procura quando tem que fazer balanços, aí de 10 em 10 anos, sobre qual o jogador que mais apreciou na sua equipa. Esse exercício obriga-o a ter esses dois tipos de memória: a de adepto de futebol e a de adepto de clube.
Isto a propósito de muita opinião em local sério e muita boca em modo de rede social, mas também por ter lido um título do jornal espanhol (e muito próximo do Real Madrid) Marca, que após a eliminação da Juventus titulava: "Cristiano, um bajón de oro". Algo que se pode traduzir por "Cristiano, uma queda dourada". Pois bem: antes de mais, a opinião é livre, o jornalismo é livre e a Marca pode assumir as dores que entender. Mas deste lado, ou de qualquer lado, também podemos opinar sobre as incidências desportivas e a forma como as mesmas são livremente interpretadas em qualquer parte do mundo.
Portanto, convém lembrar algumas coisas simples a quem personaliza no CR7 o desaire de ontem. Primeiro, foi a Juventus que foi eliminada, Cristiano Ronaldo é apenas um jogador - o melhor, dirão - e não uma equipa. Depois, ditar-lhe já a sentença que aponta ao declínio é capaz de ser algo extemporâneo, sobretudo vindo de Madrid.
Cristiano prepara-se para ser o único jogador que vai assumir o estatuto de único a conquistar títulos em três dos mais exigentes campeonatos europeus.
Um pouco à custa dos quatro títulos europeus que o Real Madrid conquistou com Ronaldo entre portas, sendo ele o melhor goleador da equipa nos quatro troféus (60 golos marcados), o internacional português tinha mais importância mediática com origem na capital espanhola do que a própria família real, exceto quando morria um elefante, animal que vale a metáfora dos que não esquecem.
Ou seja, nem sempre temos que concordar uns com os outros e isso é que é bonito no futebol. Apontar a Ronaldo, já, o caminho descendente, sobretudo quando se prepara para ser o único jogador que vai assumir o estatuto de único a conquistar títulos em três dos mais exigentes campeonatos europeus (Inglaterra, Espanha e segue-se Itália, nos próximos dias), é mostrar uma certa dor de cotovelo.
A Juventus de Cristiano perdeu a Champions. Objetivo de época não superado. Mas não é a eterna tentativa de fazer melhor a seguir que nos motiva a todos, adeptos de futebol e de clube? Talvez na hora dos balanços, quando em Espanha se escrever, daqui a 10 ou 20 anos sobre o Real Madrid que venceu quatro Champions em cinco anos, a marca de Ronaldo esteja, não em declínio, mas em talha dourada num qualquer corredor do Bernabéu.
