Quando, não há muitas semanas, Luís Filipe Vieira acordou com vontade de nada mudar, inspirado - contou o próprio - pelo ambiente de balneário nas instalações do centro de estágio do Benfica, no Seixal, de certeza que não contava com os autogolos de Rúben Dias e Jardel. Nem com a incapacidade latente da equipa em convencer os adversários de que a crise passaria com a tenacidade da sua opção, ao estilo contra tudo e contra todos.
Nessa manhã de 29 de novembro, ainda antes das aturadas conversas com os seus pares da administração, com os diretores do futebol e com o próprio Rui Vitória, que duraram até à hora de jantar, Luís Filipe Vieira convenceu-se que bastava a força da sua palavra para que a confiança e a competência renascessem. Ou foi isso ou alguém não quis ir para o Benfica, naquele momento, conforme especulado na altura.
"É que há quem lhe queira fazer a cama, nomeadamente o antigo candidato Bruno de Carvalho e o antigo administrador Rui Gomes da Silva."
Vieira não dormiu em casa depois da goleada sofrida em Munique. Na altura, pensei e escrevi que ser desancado pelo Bayern não era motivo para uma equipa perder o seu treinador. Convenhamos, quem nunca foi goleado em Munique? Mas também se fizeram contas a quanto custaria, por exemplo, resgatar Jorge Jesus ao Al Hilal, mais os reforços que este - ou outro - gostariam de ver chegar, ao mesmo tempo, ao emblema de Lisboa.
A não ser que o próprio Vieira um dia conte essa alvorada muito pessoal, esse acordar resiliente, nunca saberemos exatamente por que razão Vitória permaneceu à frente da equipa. E um mês depois desse despertar decisivo, ou seja, há meia-dúzia de dias, Rui Vitória rejeitava quaisquer possibilidades de sair do Benfica, a troco de uma proposta do Al-Nassr, rival do Al Hilal na Arábia Saudita. A mesma que Vieira disse existir aquando dos acontecimentos que levaram à madrugada no Seixal.
E hoje? Bem... Independentemente das razões que levaram Vieira a acordar disposto a manter Vitória, independentemente da capacidade de regeneração anímica do Benfica em pleno curso competitivo, conforme aconteceu em anos anteriores, que culminaram com as conquistas que se sabem, talvez à equação do presidente do Benfica tenham escapado alguns pormenores, que lhe tiram o tempo e o espaço de que então dispôs.
De 2013/14 a 16/17, os últimos quatro títulos do Benfica, não havia um FC Porto tão consistente, um Sporting tão abnegado nem um Braga tão apetrechado. E se não forem estes os melhores adjetivos, podemos sempre usar outros que revelam a potência da adversidade que o Benfica encontra hoje nos seus rivais mais diretos.
"Se nada estiver a acontecer nos corredores da Luz, convém saber onde vai dormir Luís Filipe Vieira."
Ainda falta um pouco mais de meio campeonato, mas quando o fosso entre FC Porto e Benfica era maior face aos restantes adversários, era bem mais fácil esperar que a coisa corresse bem. Porque, do mal o menos: sempre havia uma vaga na Liga dos Campeões.
Mas até isso deixou de ser assim: agora há apenas uma vaga direta e uma para as qualificações anteriores à fase de grupos. E logo à noite, se o FC Porto vencer nas Aves, fica a sete pontos do primeiro. E se o Sporting ganhar em casa ao Belenenses, fica no quarto lugar, a dois dos leões.
Se nada estiver a acontecer nos corredores da Luz, convém saber onde vai dormir Luís Filipe Vieira. É que há quem lhe queira fazer a cama, nomeadamente o antigo candidato Bruno de Carvalho e o antigo administrador Rui Gomes da Silva. O primeiro não esconde a sua vontade em avançar de novo, o segundo só deve estar a esconder o momento em que o vai anunciar.
