Ora, a vitória do "submarino amarelo", clube oriundo de um povo com pouco mais de 50 mil habitantes, tem precisamente a carga redentora que precisávamos numa época em que o futebol perdeu algo da sua alma e se adivinhava coutada de uma elite urgentemente necessitada de justificar barbaridades orçamentais e um estatuto régio que se dá mal com escrutínios.
Quem vive o futebol com paixão, só pode ter-se emocionado até às lágrimas com o dramatismo da quase interminável série de 22 penáltis da final da Liga Europa entre o Villarreal e o Manchester United. No meu caso, vivi aqueles momentos com a sede de uma espera que se estanca na torrente, como cantava o Sérgio Godinho. No fundo, foi a descarga emocional de quem, por breves minutos, rebobinou toda uma época disputada no limbo, sem graça, poesia e colorido.
O regresso doseado do público às bancadas, o eterno nervosismo de roer unhas, a alegria destravada de uns e o incrédulo desalento de outros, devolveram-nos a essência do jogo, a vertigem e o ruído das grandes decisões e a sua alma popular. Enquanto adeptos, vivemos há demasiado tempo com as emoções em farrapos ou retraídas, como se, por via deste quotidiano pandémico, habitássemos terra de nenhures em busca da salvação. Mentimos ao nosso íntimo porque amamos o jogo, as suas incidências, as nossas cores, as eternas rivalidades. E, pelo meio, ainda nos enganamos quando pensamos que os milionários deste negócio vão desistir de fazer do futebol condomínio privado, só acessível a uma aristocracia que não pode nem quer correr riscos desnecessários para as suas já esganadas finanças diante de um qualquer Villarreal vindo da província.
Ora, a vitória do "submarino amarelo", clube oriundo de um povo com pouco mais de 50 mil habitantes, tem precisamente a carga redentora que precisávamos numa época em que o futebol perdeu algo da sua alma e se adivinhava coutada de uma elite urgentemente necessitada de justificar barbaridades orçamentais e um estatuto régio que se dá mal com escrutínios.
Neste tempo de multinacionais da
bola, geridas por poderes distantes e
opacos, o Villarreal carrega o
romantismo de uma devoção antiga.
Os atletas feitos em casa não são
tratados como adereços, o crescimento
sustentado não é utopia e o culto da
proximidade entre adeptos e
dirigentes tem raízes profundas.
O Villarreal não tem vícios de
conglomerado, não é uma marca
à procura de um símbolo, nem
pretende vender a identidade para ser
atrativo aos olhos e às contas bancárias
de enfadados bilionários árabes que
não sabem bem o que fazer ao dinheiro.
Quando em Villarreal se fala em cidade e academia desportiva isso simboliza mais do que investimento num complexo de luxo para a prática da modalidade. Os ativos da instituição espanhola que, há poucas décadas, ainda se arrastava pelos campeonatos regionais, são os laços comunitários, atletas comprometidos com uma camisola e as suas gentes, e os orçamentos contidos que, em clubes de outra dimensão, mal dariam para a cova de um dente. E, no entanto, a Liga Europa está no papo e, na próxima época, o "submarino" promete agitar as águas da Liga dos Campeões, onde navegam os tubarões instalados que há muito reclamam mais pecúlio e menos partilha do mesmo.
Há futuro para a cultura desportiva e empresarial do Villarreal? Pelos vistos, por ali não se têm dado mal com a filosofia, remediada nos meios, mas inspiradora nos propósitos. De resto, na caminhada para a conquista do troféu da UEFA, o primeiro da sua história marginal, a equipa despachou dois clubes da tal elite que pretende instalar uma espécie de sistema de castas no futebol, onde, a um clube como o Villarreal, estaria destinado, quando muito, o papel de criado-mudo.
Pois bem: o futebol está vivo e recomenda-se. Se um clube como Villarreal triunfa no mais minado território das improbabilidades, talvez o futuro reserve mais do que esta reconciliação romântica e nostálgica à boleia do "submarino amarelo".
