DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
Um Benfica-FC Porto é mais do que um "clássico". É, ao mesmo tempo, uma instituição psicoterapêutica e um evento sísmico - devíamos arranjar-lhe um nome melhor, não concordam? Podia ser um Cá-Lá, por exemplo. Ou um Fim-da-Picada? Um Toma-Lá-Que-Já-Almoçaste? Um Nunca-Se-Sabe, um Xiribitatá?
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A verdade é que são jogos sempre imprevisíveis e emocionantes. A prova foi dada neste ano "atípico" (perdoem-me o eufemismo). Mesmo a discutir algo de relevância tão duvidosa como um segundo lugar, as nossas almas de adepto roeram unhas, saltaram, sofreram. O álibi racional para a disputa era o acesso direto à Liga dos Campeões - mas, bem o sabemos, a verdade é outra. Fosse qual fosse a classificação das equipas, um Xiribitatá vale por si. Também por isso, foi tão irritante o empate.
Mas comecemos pelas coisas boas. Que loucura, aquele golo de Everton. O que é que eu disse? Aquele golo do Cebolinha! Sim, caros amigos: finalmente, Everton transformou-se em Cebolinha. Saiu da sua zona de conforto e veio pegar a bola cá atrás, no meio de pernas portistas; fez uma malandragem tropical em rotação, dando uma tontura momentânea aos adversários que o cercavam; despachou a redondinha para Rafa no momento-limite, que era o momento certo; recebeu a bola do artista português sem cerimónias e, com um descaramento de miúdo a futebolar na rua, chutou pelo meio das pernas de Pepe, para a gaveta de baixo da baliza azul-e-branca. Olé, um golaço dos diabos - que merecia melhor continuação...
A verdade é que o Xiribitatá de quinta-feira foi uma espécie de resumo do reinado de Jorge Jesus. O técnico do Benfica, que vive centrado no seu umbigo e é incapaz de admitir erros (quanto mais de aprender com eles), não consegue fazer uma boa equipa do excelente conjunto de jogadores que tem ao dispor
A verdade é que o Xiribitatá de quinta-feira foi uma espécie de resumo do reinado de Jorge Jesus. O técnico do Benfica, que vive centrado no seu umbigo e é incapaz de admitir erros (quanto mais de aprender com eles), não consegue fazer uma boa equipa do excelente conjunto de jogadores que tem ao dispor. O 3-4-3 é muito bonito, mas exige um rigor de futebol total: pressão a todo o campo, ocupação cirúrgica dos espaços, sincronização simultaneamente exata e livre como a de um corpo de balé. Em vez disso, o máximo que este Benfica nos dá são figuras: Rafa, Diogo Gonçalves, Pizzi, Taarabt e, desta feita, também Cebolinha... Além disso, o técnico também tem de assumir a responsabilidade pela estratégia medrosa. Marcar um golo e passar a defender, espreitando apenas o contra-ataque? É uma escolha legítima, claro, mas não é solução para o Glorioso. Nós precisamos de bola - de querer sempre a bola -, precisamos de ser nós a escrever a música do jogo.
Quanto à arbitragem: houve erros? Houve. Mas digo-o aqui com todas as letras: prefiro os erros humanos em cima do momento à correção burra das máquinas dos centímetros que, jogo após jogo, avariam a emoção do nosso futebol.
E, para o ano, continuamos assim?
