Por cada tostão que o uruguaio pede limpo (sem impostos), o Benfica tem que pagar dois. A soberba é cara e não bastam as teorias mediáticas
O caso entre Cavani e o Benfica tem pouco de rocambolesco, ao contrário do que se julga e do que opina. Até é simples de explicar.
A conclusão é simples: por muito que queira, o Benfica precisa mais do que o estofo financeiro que apregoa para andanças do género Cavani.
O jogador fez o seu preço líquido e o contratante fez as contas ao bruto: aos encargos, nomeadamente os fiscais. E, sabendo-se que o futebol português tem de assumir, para efeitos de IRS, um pouco mais de metade do salário base (53% por cento em rendimentos superiores a 250 mil euros/ano), a que soma mais uns trocados para a Segurança Social (um regime especial do código contributivo permite aos clubes pagar apenas um quinto dos 11 por cento da contribuição obrigatória para os restantes cidadãos), os tais 10 milhões "limpos" por ano (três anos) que o uruguaio exigiu para si representam, por si só, mais de 20 milhões por época.
Mais o prémio de assinatura, mais as comissões para os intermediários, mais isto, mais aquilo, mais não sei quantas coisas que nenhum engenheiro de finanças, perito em fuga aos impostos, consegue resolver.
A conclusão é simples: por muito que queira, o Benfica precisa mais do que o estofo financeiro que apregoa para andanças do género Cavani.
Uma coisa é ter dinheiro em caixa, outra é reinvesti-lo sem ter encargos com o Estado. Uma chatice, dirão. Mas alguém tem que pagar os médicos, os enfermeiros e os assistentes hospitalares que todos aplaudimos à janela, nos idos de março, alguém tem que pagar os professores e os assistentes escolares que obrigaremos a tomar conta da miudagem a partir de setembro, e alguém tem que pagar a polícia, os bombeiros e outras fardas - da Segurança à Justiça - antes que estas fiquem à mercê dos populistas e manipuladores.
Assim, ou Cavani baixa no que exige e aceita a proposta que o administrador Rui Costa diz que o Benfica fez - não disse qual ou por quanto - ou não irá para a Luz porque é caro para os bolsos do Benfica, apesar dos vários que defendem a tese de que o emblema de Lisboa é uma exceção no futebol português. É o problema de se confundirem conceitos: ter uma enorme dimensão não é o mesmo que ser uma enorme exceção.
