DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
"A delicadeza", "o escrúpulo", "a humildade, a lealdade, o altruísmo". Numa das suas crónicas imortais, Nelson Rodrigues aponta esses como os defeitos do futebol brasileiro dos anos cinquenta-sessenta.
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E inventa um sociólogo para diagnosticar a coisa logo ali: "O escrúpulo é próprio do subdesenvolvimento." Viajando no tempo e no espaço até ao futebol português do século XXI, apetece perguntar: estaremos demasiado, estupidamente, desenvolvidos? É que o ambiente por cá está de tal ordem que, se não lhe juntarmos umas pitadas de delicadeza, escrúpulo, humildade, lealdade, altruísmo, podemos asfixiar o nosso espetáculo-maior-do-mundo. Nem falo da vergonha do que se passou depois do Moreirense-FC Porto - isso é matéria policial que terá de ser resolvida na justiça. Falo do clima geral. Carlos Carvalhal pede calma, a ver se não andamos todos à pancada. Tem razão. Se passamos a vias de facto, o futebol morre. Há um lado platónico do desporto que é essencial. A bola é, em boa medida, uma forma de exorcizar impulsos violentos, de metaforizar pancadas.
Nem falo da vergonha do que se passou depois do Moreirense-FC Porto - isso é matéria policial que terá de ser resolvida na justiça. Falo do clima geral. Carlos Carvalhal pede calma, a ver se não andamos todos à pancada. Tem razão. Se passamos a vias de facto, o futebol morre
Por vezes, fala-se das grosseiras baixezas de dirigentes, treinadores e afins como de uma qualquer loucura benigna de quem gosta demais de futebol - trata-se, caros leitores, de um equívoco monstruoso. O insulto e a violência são atos de quem, pelo contrário, se põe fora do desporto. Podemos falar das consequências que ações antidesportivas merecem da parte dos órgãos responsáveis (a impunidade é um sinal pouco "pedagógico"...), podemos discutir a perda de autoridade dos árbitros com a introdução de robôs auxiliares (e, em simultâneo, a forma como devem ser escolhidos, avaliados e defendidos), podemos escrutinar os interesses financeiros por trás de cada resultado para pôr a nu eventuais interferências (e certas interpretações) - podemos e devemos, sim. Mas a coisa desemboca sempre em algo simples que tentamos ensinar aos nossos filhos: saber perder. Sem isso - sem que se dê essa "revolução mental" em cada adepto, jogador, treinador, dirigente -, tudo o resto serão pensos rápidos colados sobre uma dor espiritual.
Mas vamos falar de bola-bola, sim? Vem aí o Benfica-FC Porto, que, mesmo em versão de "clássico atípico", tem tudo para ser uma boa futebolada. Da vitória ao Santa Clara para a vitória ao Tondela, o Benfica melhorou o jogo interior (essencial para não ficar limitado às laterais), afinou a pressão (essencial para ganhar a bola) e "psicologizou" alguns jogadores mais cabisbaixos (essencial para o esférico entrar na baliza). O sistema de três centrais está mais ensaiado e o posicionamento de todos parece mais vivo e rigoroso - mas sabemos que o que mais conta no futebol ainda é o caráter. Vamos a isso?
