Um artigo de opinião de Domingos Castro, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo
No próximo dia 28 de fevereiro assinalam-se 50 anos sobre a primeira medalha de ouro mundial de Carlos Lopes. Foi no corta-mato, conquistada em 1976, em Chepstow, no Mundial de Cross Country, realizado no País de Gales. Foi a primeira de três coroas mundiais nesta disciplina (obtidas em 1976, em 1984 e 1985) e o prenúncio de um feito maior: a inesquecível vitória na maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984, onde, aos 37 anos, ofereceu a Portugal a sua primeira medalha de ouro olímpica.
Falar de Carlos Lopes é falar da razão pela qual muitos da minha geração escolheram o atletismo. Eu próprio estou aqui, também como presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, porque um dia o vi correr e acreditei que era possível sonhar. Foi o meu ídolo de todos os tempos. Foi ele que me trouxe até onde estou.
O Carlos era um campeão de valores, não apenas de títulos. Todos queríamos correr ao lado dele, aprender com ele, absorver a sua experiência. Tive esse privilégio e recordo tantas vezes uma frase que repetia quando falava para os mais novos: "Nestas coisas das corridas nada se ganha com a língua". Guardava para si a confiança que levava para as provas, mesmo quando sabia que podia vencer. Fazia-o por respeito aos adversários e à própria modalidade. Ensinou-nos que o silêncio, o trabalho e a humildade constroem vitórias mais sólidas do que qualquer palavra.
Aos 79 anos, que celebrou na semana passada, Carlos Lopes continua a ser um farol. O seu exemplo ultrapassa medalhas e recordes; é uma referência ética e humana. Será difícil voltar a ter em Portugal um atleta que reúna tanto numa só pessoa: talento, resiliência, grandeza, humanismo, modéstia. Um atleta completo.
Em meu nome pessoal e em nome da Federação, o país permanece grato. Porque há campeões que ganham corridas. E há campeões, como Carlos Lopes, que mudam destinos... inclusive o meu.

