Campeonato que é terreno fértil para apitos, toupeiras, missas e um clima insalubre
RUGIDOS DE LEÃO - A crónica semanal de Samuel Almeida
Os recentes resultados das equipas portuguesas na Europa mostram o plano inclinado em que se encontra o campeonato português. São várias as causas, que vão desde a gritante impreparação de boa parte dos dirigentes à falta de planeamento, modelos de gestão inadequados, um quadro competitivo e regulamentar desajustado, falta de transparência e integridade das competições, excesso de jogadores estrangeiros, tudo culminando na falta de capacidade financeira para segurar os maiores talentos.
Sem mais clubes competitivos, sem espetáculo e mais receita, estamos condenados a um estatuto de menoridade
Este é um quadro conhecido por todos e desejado por alguns, ancorados nos jogos de bastidores que lhes permitem perpetuar-se no poder dos clubes mais representativos em Portugal. As equipas portuguesas estão a perder competitividade e já nem conseguem bater-se com as suas congéneres escocesas, turcas ou ucranianas. Não é o G5, é a segunda divisão europeia.
Quem lucra com este estado de coisas pode sempre argumentar que somos campeões da Europa ou que dispomos do melhor jogador do mundo, mas se olharmos para os números da Liga NOS, os mesmos refletem o quadro acima descrito. A liga portuguesa é o campeonato europeu com menos tempo útil de jogo (50,9%), é o sétimo campeonato com mais cartões entre 31, e é o país onde mais faltas se cometem por jogo, com uma média de 32,9, o que compara com as 24,2 da liga inglesa.
Em termos de golos, estamos em 28.º lugar, sendo que apenas três países estão atrás de nós. Mas as más notícias não ficam por aqui. Além da má qualidade do espetáculo, Portugal é país mais caro da Europa para ver futebol em casa, com um valor médio de 40 €/mês, contrastando com os 10€ pagos em Itália.
De igual modo, a Liga NOS é o campeonato em que existe maior disparidade nos direitos televisivos, em que os três grandes recebem 15 vezes mais que a média dos demais clubes, contrastando com a liga inglesa, em que os grandes ganham apenas mais 1,3 que a média. Na mesma linha, a liga portuguesa é das que menos receitas geram, ficando atrás da Holanda e da Turquia e pouco acima da Bélgica.
Aliás, se olharmos para os principais 51 campeonatos (incluindo algumas divisões inferiores), Portugal surge em 17.º lugar para o período 2013-18, com uma média de 11 mil espectadores, abaixo da segunda divisão inglesa e germânica e com quase metade dos espectadores da Holanda (19,154).
Somos, aliás, o terceiro país em que os grandes mais pesam para o total de espectadores (63,9%), comparando, por exemplo, com os 37,5% da liga holandesa. É um futebol de assimetrias, pobre, mal jogado, com polémicas e jogos de bastidores. Um campeonato que é terreno fértil para apitos, toupeiras, missas e um clima insalubre que inviabiliza o desenvolvimento sustentável da competição.
Aliás, sem mais clubes competitivos, sem espetáculo e mais receita, estamos condenados a um estatuto de menoridade. Num mundo global, a falta de competitividade internacional dos clubes portugueses ditará a perda do estatuto de clubes grandes a médio prazo. O mundo não acaba no Marquês ou nos Aliados.
Comportamento da equipa na Turquia reflete a falta de qualidade do plantel, mas, acima de tudo, falta de liderança e mentalidade competitiva
O Sporting não foge a este quadro de declínio. O desastre desta época resulta de vários fatores - nem todos imputáveis a esta Direção -, mas é a consequência do planeamento desastroso da época, da falta de liderança e visão estratégica para o clube. O comportamento da equipa na Turquia reflete a falta de qualidade do plantel, mas, acima de tudo, a falta de liderança e mentalidade competitiva, assim como uma deficiente abordagem ao jogo.
Aos atletas da equipa profissional e seus técnicos exigia-se mais, não bastando pedidos de desculpa. E da administração da SAD, falta alguém dar a cara por tamanho desastre. O Sporting precisa de ser repensado de alto a baixo, a começar pelo seu modelo associativo, modelo de governação e gestão, acabando na política desportiva para futebol profissional, formação e modalidades.
É uma refundação urgente que exige tempo e um largo consenso da massa associativa. Impõe-se uma profunda reflexão estratégica que permita enquadrar as próximas candidaturas e atos eleitorais. Neste ponto, saúdo a iniciativa de diversos sportinguistas em criar a plataforma "sportingcomrumo", com a realização de diversos debates sobre temas estruturantes do clube. Uma nota final de pesar pelo desaparecimento da nossa atleta Teresa Machado, uma desportista de eleição que parte cedo demais.
