RUGIDOS DO LEÃO - A opinião de Samuel Almeida
1 - Dividir para reinar é uma velha máxima da política e da arte da guerra. De César a Maquiavel, Napoleão e muitos outros. E é assim que vive o futebol português, a ferro e fogo, com os mesmos protagonistas de sempre e as mesmas polémicas. A má moeda afasta a boa, já afirmava Cavaco Silva num artigo que ditou a queda do governo de Santana Lopes. O problema é que o futebol é um submundo auto regulado, com os resultados à vista.
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2 - Na Liga, os jogos de poder começam a deixar claro quais os lados da barricada. A centralização dos direitos televisivos não interessa a um clube, pelo que se impõe a substituição de Proença - que não dispõe de condições para continuar - nem que seja necessário concentrar todo o poder do futebol português nas mãos da FPF, cujo Presidente saiu incompatibilizado com Pinto da Costa.
3 - Uma das soluções para terminar com este regabofe seria dotar a direção da Liga de total autonomia face aos clubes, permitindo a organização das provas profissionais sem a interferência direta daqueles. Este modelo de governo em autorregulação condiciona a organização das provas, com os clubes a ditarem diretamente as regras sobre matérias nas quais têm, por natureza, um interesse próprio e interesses conflituantes entre todos.
4 - Confesso que não entendo qual o papel do Sporting no meio disto tudo, sendo que ninguém no clube desmentiu (oficial ou oficiosamente) a aliança com o Benfica. A ser verdade, é um erro monumental, pois o Sporting não pode andar a reboque das estratégias de poder dos nossos rivais. Há muito que defendo uma estratégia e caminhos próprios, alicerçada no apoio e estabelecimento de parcerias com clubes dotados de fortes projetos de formação.
5 - Uma coisa é certa: os dirigentes do Sporting não podem cair no canto da sereia, nem aceitar ficar com as migalhas e os despojos das guerras alheias. Um papel de menoridade que sempre nos saiu caro. Pior que tudo é não entender que o Sporting de Braga é o cavalo de Troia na luta pela hegemonia do futebol português. O Benfica quer o penta e o Braga é o pião que fará Sporting e Porto afundarem-se nos seus equívocos e fragilidades. Não deixa de ser curiosa, aliás, a força crescente de um clube que é apenas o sexto no ranking de títulos, tendo ganho numa década de António Salvador os mesmos títulos que Keizer. O Braga é respeitável, mas não é um rival. Em suma, se o enfraquecimento desportivo do Porto é a janela de oportunidade para a reafirmação progressiva do Sporting, a mesma não pode ser feita à boleia de Benfica, cujo poder ameaça secar tudo à sua volta, inviabilizando o crescimento do próprio futebol português.
6 - No meu clube, continua o debate. Desta vez foi Carlos Cruz a publicar novo artigo sobre a venda da SAD, com argumentos que, desta feita, confesso não entender. Afirma que o ecletismo pode ser mantido com um acordo entre o clube e os investidores de forma a manter o financiamento das modalidades. Parece ignorar-se a proibição de transferência de fundos da SAD para o clube, sendo que ninguém pode garantir dividendos. Ignora-se, de igual modo, as regras de fair-play financeiro que limitarão sempre a capacidade do clube em fazer crescer exponencialmente a sua massa salarial. Por fim, afirma-se que é tempo de ousar. Quando o futuro do clube está assente numa profissão de fé, julgo que está tudo dito. Contudo, esta divisão salutar de posições mostra a relevância do debate e a necessidade imperiosa de criar condições para uma maioria estável no clube, o que só se consegue com uma segunda volta eleitoral e uma maioria absoluta.
7 - Bruno de Carvalho foi ilibado, o que é uma boa notícia. Para o próprio e para o clube que não vê seu nome enlameado. Mas Bruno não foi destituído por causa de Alcochete, mas sim pela prática de vários atos violadores dos estatutos. Criação de órgãos ilegais, recusa de acesso às instalações do clube, recusa de realização de uma AG, etc. Bruno não foi destituído por ser um terrorista, mas por ter instituído e promovido o terrorismo institucional, o que é bem diferente. De qualquer forma, creio que este tema e a pacificação do clube só se resolverá em sufrágio. Bruno de Carvalho deve ir a votos, não como sócio, mas assumindo uma candidatura clara e inequívoca à liderança da SAD. Aos sócios caberá depois a decisão, sob pena de vermos nosso futuro coletivo comprometido.
