O cronista de O JOGO António Barroso reflete sobre a ligeira dissonância no discurso entre o presidente e o treinador do Sporting de Braga.
Em modo de ditado popular, diz-se que os bicos de pés provocam bicos de papagaio. Uma máxima que, com mais ou menos ciência, nos remete para o atual "convívio" entre o treinador e o presidente do Braga. O técnico Abel Ferreira, após as derrotas com o Belenenses e Sporting, deixou-se da postura em bicos de pés e assumiu uma atitude mais ponderada, talvez para retirar um pouco a pressão à equipa. Atitude que António Salvador não gostou de ver assumida em público e fez saber que o mínimo exigível à equipa - e, por consequência, ao treinador - é o terceiro lugar no campeonato.
Quando Abel recuou no discurso de grande e de candidato ao título, ter-se-á vislumbrado o posicionamento de um líder a não querer perder a equipa.
Vamos começar pelo cenário à data de hoje: se o Sporting vencer o Marítimo, restará apenas um dos sete pontos que os bracarenses chegaram a ter de vantagem sobre os leões. Pelo que restará a Abel, seguindo os desígnios de António Salvador, manter a equipa em bicos de pés e o seu discurso em modo de ressonância típica dos habituais candidatos ao título.
Convém-lhe, também por isso, rezar um pouco para que não ganhe bicos de papagaio à custa de tanto se manter em bicos de pés. Diz a ciência que os bicos de papagaio aparecem quando o organismo tenta estabilizar o desgaste apresentado na estrutura do corpo, normalmente provocados por uma postura inadequada.
Ora, quando Abel recuou no discurso de grande e de candidato ao título, ter-se-á vislumbrado o posicionamento de um líder a não querer perder a equipa, um bando de homens "feridos" após duas sangrentas batalhas (uma das quais em casa, o que já não acontecia há mais de um ano). Abel foi jogador e sabe quando é preciso recuar para lamber as feridas, que é a única hipótese de voltar ao ataque.
Nivelar as candidaturas ao título por quatro mais não é do que estar em bicos de pés perante a realidade.
António Salvador, ao contrário, é um gestor de sucesso com urgência nos sucessos desportivos. Há mais de uma década que procura, legitimamente, colocar o Braga em todos os poleiros do futebol nacional. E está a "um bocadinho assim" de o conseguir. É um gestor e um político, dos que não está muito disposto a ceder às cumplicidades de balneário, não vá o balneário pedir mais tempo para garantir títulos.
Salvador até aceita não ser campeão, só não aceita não estar no pódio. Assim é porque Salvador é um sagaz político do futebol, que tem aproveitado o desgaste por episódios do Sporting para se aproximar do topo nacional. E, tenaz como sempre se mostrou, não quer complacências nesse objetivo: se não for campeão, que seja, pelo menos, o terceiro melhor na maior parte das vezes. E se assim for, tem argumento para reafirmar-se como estando entre os quatro de maior grandeza, ou a fixação do paradigma dos quatro grandes.
Bem, mas isso de quatro grandes é que continua a ser muito discutível. O problema é que estar entre os quatro habituais melhores classificados não é o mesmo que estar entre os candidatos ao título. É que esses há muito deixaram de ser três e nunca foram quatro como hábito.
Na realidade, são dois: FC Porto e Benfica. Pelo que nivelar as candidaturas por quatro mais não é do que estar em bicos de pés perante a realidade. E nunca se sabe quando isso pode provocar bicos de papagaio...
