Federação inglesa está a analisar alegado comportamento racista do português e eu estou pelos cabelos com os politicamente corretos
Bernardo Silva está, por estes dias, na mira da justiça desportiva na Inglaterra, que averigua um alegado comportamento racista do jogador português do Manchester City. Dito assim, a coisa parece grave. O problema é que isto se transformou num facto, mesmo não o sendo.
Esperamos que a FA, a federação inglesa de futebol, não queira ver na tanga entre Bernardo Silva e Mendy um motivo para marcar pontos politicamente
Vamos por partes. Primeiro, o internacional luso, nas suas contas pessoais das redes sociais, brincou com Mendy, colega de equipa, paródia que até tem episódios anteriores. O clima de camaradagem e amizade entre ambos é sobejamente conhecido. Segundo, face a comentários digitais e a "notícias" (ponho as aspas por respeito ao que é realmente notícia), a federação inglesa abriu um processo de investigação para perceber se houve ou não comportamento racista de Bernardo Silva.
Já ando pelos cabelos com as neocensuras da moda, que vão dos juízos de valor sobre os comportamentos carnívoros dos humanos, passando pela perseguição aos que, sabedores da inconsistência do ato, não separam lixos em casa, e que culminam na confusão entre o que são atitudes de sedução e de assédio sexual. E porque já não tenho paciência absolutamente nenhuma para os juízes e juízos tipicamente histéricos nas redes sociais, partilho aqui a minha convicção sobre o caso de Bernardo Silva: não foi racismo. Nem perto disso. Aliás, é o contrário.
Não foi racismo por várias razões. Desde logo, porque não existe qualquer intenção discriminatória ou insultuosa na brincadeira entre ambos. Nem em anteriores. O que confirma a existência de um contexto nas suas interações. Numa relação de amizade, as interações de humor entre as partes são ainda mais sagradas do que a liberdade de expressão que é apanágio (e letra de Lei) dos humoristas profissionais.
Num determinado contexto, o que parece uma agressão verbal é, quase sempre, apenas a extrapolação de características que são comuns à relação entre partes, de modo a que a coisa tenha piada, pelo menos entre eles. E este "entre eles" não é despiciendo ou redutor. É o mais importante: é a vida deles, é a relação deles e ninguém tem nada a ver com isso, assistindo-se à coisa através de uma janela aberta, de um tweet ou de uma foto no Instagram.
Estas atitudes exageradamente censórias só prejudicam a verdadeira luta antirracista
Para que tivesse havido racismo, seria preciso que a ação de Bernardo Silva defendesse qualquer tipo de superioridade baseada num preconceito rácico, seria preciso que o contexto não fosse o de uma brincadeira - usual, ainda por cima - entre ambos, seria preciso que nela se vislumbrasse algum género de hostilidade.
Esperamos que a FA, a federação inglesa de futebol, não queira ver na tanga entre Bernardo Silva e Mendy um motivo para marcar pontos politicamente. Pontos que, hoje em dia, são uma espécie de buraco negro do bem-estar entre as pessoas, na sua capacidade pessoal de discernimento sem a intervenção dos paizinhos institucionais nem das mãezinhas do politicamente correto.
Eu, antirracista desde que me conheço, vejo na troca de mimos digitais entre Bernardo Silva e Mendy uma forte camaradagem, amizade e companheirismo. É saudável e desmistificadora, precisamente, da extremíssima e pouco benéfica sacralização da chamada comunicação limpa de preconceitos. Essa limpeza não tem métrica, é muito relativa. E só o contexto da interação entre ambos permite avaliar, de fora, esses comportamentos.
O contexto, neste caso, é inequívoco: é uma muito civilizada e exemplar relação entre dois companheiros de equipa com cores de pele diferentes. E a gozarem-no entre si, como só irmãos conseguem fazer.
Aos histéricos que rapidamente acusaram Bernardo Silva de racismo, aconselho juízo. Estas atitudes exageradamente censórias só prejudicam a verdadeira luta antirracista.
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