CARA E COROA - Jogar duas vezes em casa e receber um adversário que não descansou a meio da semana é uma clara vantagem numa altura em que o calendário aperta para todos, mas há uns para quem aperta mais do que para outros.
1 - Carlos Carvalhal e o próprio jogo de ontem na Luz acabaram por dar razão às queixas de Sérgio Conceição relativamente à forma como o calendário beneficiou o Benfica nesta fase de aperto da I Liga.
Os encarnados sentiram dificuldades para se impor de forma clara durante o primeiro tempo, desbloquearam o jogo num pontapé de canto e viram uma bola desviada pelos ferros da baliza de Vlachodimos antes do intervalo. Depois, no segundo tempo, faltou intensidade ao Rio Ave para reagir, com Carvalhal a explicar que "Taremi jogou a 30 por cento", a acrescentar que "não houve agressividade ofensiva" e a concluir que "a história podia ter sido outra" se os vila-condenses não tivessem sido obrigados a "jogar até ao último segundo" na quarta-feira.
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Jogar duas vezes em casa e receber um adversário que não descansou a meio da semana é uma clara vantagem numa altura em que o calendário aperta para todos, mas há uns para quem aperta mais do que para outros. Por outro lado, também é verdade que, mesmo quando se sentiu apertado, o Benfica ganhou, garantindo a liderança isolada do campeonato precisamente numa altura de indefinição no futebol da equipa. Será certamente cedo para imaginar o regresso do rolo compressor que marcou a segunda metade da última temporada, e até o jogo de ontem voltou a mostrar que o líder vai mais formoso do que propriamente seguro. Ainda assim, mais seguro do que os rivais - e isso faz toda a diferença.
2 - Há cerca de uma semana, o CIES - Observatório do Futebol, publicou um estudo onde se concluía que, de entre 35 ligas europeias, a portuguesa era a quarta com menos tempo útil de jogo: em média, apenas 51,9% é futebol jogado.
O Aves, lanterna-vermelha do campeonato e próximo adversário do FC Porto, é o clube que regista a pior média de todos os da I Liga, com apenas 49,5%, apenas ligeiramente acima dos 49,4% de tempo útil registado na receção do Marítimo aos dragões na última quarta-feira. Um dado que permite adivinhar o que espera o FC Porto no jogo de amanhã no Dragão, mas que também torna evidente a relação que há entre a falta de argumentos para discutir os jogos olhos nos olhos e o recurso ao antijogo como arma de eleição, especialmente quando se defende um empate ou uma vantagem.
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Ora, claro que é possível apelar ao sentido estético, à ética ou à dignidade de treinadores e jogadores. E também se pode exigir aos árbitros que tratem de proteger o espetáculo, compensando adequadamente as perdas de tempo, por um lado, e não deixando de punir apropriadamente os excessos de dureza, por outro. Mas enquanto os três grandes receberem, só em direitos televisivos, cerca de 16 vezes mais do que as equipas médias da I Liga, o fosso entre uns e outros vai continuar a aumentar, ferindo a competitividade do campeonato e forçando cada vez mais equipas a recorrerem ao antijogo por falta de outros argumentos.
Se os grandes querem mesmo acabar com o antijogo, se querem jogos mais abertos, disputados e corridos, talvez tenham de começar por considerar a hipótese de dividir melhor o bolo das receitas, garantindo que os pequenos ficam um pouco maiores e mais capazes de os olhar nos olhos sem acusar o esforço de passar o tempo em bicos de pés.
