Confesso que tinha resistência a puxar Aursnes para o meio, mas a equipa é uma máquina coletiva que exige um princípio de qualidade de jogo indiscutível.
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Se falamos em jogar verdadeiramente (e não só de fazer jogadas, mesmo umas atrás das outras) os chefes são os médios-centro que marcam o ritmo de jogo. Para o posicionar e decidir por onde rodar (intenção e direção), para dizer quando é momento de pressionar ou quando é tempo de organizar. O Benfica ganhou, nos últimos jogos, esse critério de forma mais clara e agressiva (no sentido tático de velocidade a invadir espaços).
Gosto do futebol de Enzo, porque parece dar sossego a tantos momentos confusos, e até de Ríos, que continuo a ver em campo como um "turista perdido" num aeroporto sem saber qual é o voo certo a apanhar, mas quando, de repente, estes dois se lesionaram, surgiu nessa zona central como chefe, um jogador, Aursnes, que já sabíamos que tinha essa origem mas que nos últimos anos tem andado sobretudo, em nome da "tese dos flancos assimétricos", desde a faixa, mesmo que fosse como dito "falso-ala".
A afirmação-Aursnes
Ok, posto isto, o seu momento de ser chefe chegou e foi para o meio. Imediatamente a equipa melhorou a partir do ponto de partida tático central. De repente, o meio-campo que parecia sem moderador, um cruzamento sem semáforos (confundindo tempos de pressão com os de construção), ganhou um critério objetivo. Ao seu lado, o "operário utilitário" Barreiro é o "Sancho Pança tático" ideal para o acompanhar.
Confesso que tinha resistência em querer puxar Aursnes para o meio porque lhe via a tal inteligência (e influência no equilíbrio em zonas mais adiantadas) a vir de fora para dentro desde a tal estranha definição de "falso-ala", mas a verdade é que uma equipa é uma sofisticada máquina coletiva que precisa de um princípio de qualidade de jogo indiscutível.
Aursnes devolveu-lhe isso como médio-centro. Ganhar ou perder os jogos, isso já é outra questão e foge, na última instância, à relação remate-golo, ao seu controlo.
Como ver estes jogadores
Em geral, os jogadores que jogam neste espaço são chamados de "jogadores invisíveis". Os curtos resumos das melhores jogadas nunca querem saber deles, a não ser que surjam pelo grito. Até Hjulmand, com o recuo no terreno pela mudança de sistema esta época, quase desapareceu desses três minutos.
Aursnes não é, por natureza estilística, um "jogador bonito" a jogar. Varela e Enzo, por exemplo, têm outra "pinta" (como os clássicos nº5 latino-americanos), mas isto não é um concurso de beleza futebolística. É de tática e controlo do jogo. Mesmo careca e meio entroncado. Um nórdico é assim. E, se não for, grita mais (para o jogo, adversários, árbitro e colegas). Como Hjulmand. E também acaba a mandar em tudo o que se move em campo.
São formas implacáveis de dizer que "aqui mando eu!". É dessa forma que se percebe o muito que joga Aursnes. Quase como, por vezes, parece cavar na relva túneis por onde fazer sair a equipa toda.

