BOLA DE TRAPOS - A opinião de Miguel Carvalho.
A Liga Revelação teve, nos últimos dias, uma propaganda que nunca sonhou.
O problema é ter sido por más razões.
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José Faria, treinador dos sub-23 do Leixões, revoltado pela forma como perdeu o título para o Estoril, saído da refrega do final da partida e desagradado com os comentários de Sofia Oliveira, do canal 11, dirigidos à sua equipa, não foi fofinho: "As Sofias desta vida têm de aprender muito para andar no futebol, porque o futebol tem de ser dos homens do futebol".
A quente, José Faria talvez pareça um "cro-magnon" da bola.
Mas a frio, as desculpas que ele deu - e como as deu - talvez me levassem a desafiá-lo para um petiscanço na "leixonense" Adega Stadium, do Zé Papagaio, para apaziguar o clima e trocar ideias sobre o assunto. (Até podíamos levar a Sofia, se ela quisesse...). Tenho a certeza de que saíamos de lá sem desconversar: ele a meter a mão na consciência e a admitir que existe um discurso entranhado no futebol que urge combater e eu a mostrar-lhe que enterrar preconceitos e desempoeirar as mentes é, por exemplo, adotar a recente campanha da Rede Europeia Anti-Pobreza que dá a volta ao texto ao discurso do ódio. "Toda a gente sabe que o lugar da mulher é onde ela quiser", é uma das frases a duas cores, dessas que ficam bem numa t-shirt. E no cérebro.
José Faria garante que se referiu a "homens do futebol" como poderia ter dito "pessoas do futebol". Recusa o epíteto de machista ou preconceituoso e até manifesta incompreensão por existir uma classificação à parte para a arbitragem feminina e um salário inferior ao de Messi, Cristiano e Neymar para a brasileira Marta, seis vezes melhor futebolista do mundo (aplaudam agora). Ah, e notem bem: a mãe de José Faria já esteve ligada ao futebol e ele até queria que a sua pequena Maria jogasse à bola (ela escolheu atletismo). Quando se atirou às "Sofias desta vida", pena não se ter lembrado que, um dia, alguém pudesse dizer o mesmo da Maria. Nessa altura, porém, já o "deslize" fizera o seu caminho incendiando a pradaria das redes sociais, onde vive aquela tribo indígena viciada no mais pequeno clique de indignação.
A comentadora Sofia Oliveira é isenta de crítica? De todo. Há até quem lhe tenha identificado disparates de sobra que valeriam bom cartucho de prosa humorada. O direito ao disparate é universal, até para José Faria. Mas nenhuma Sofia Oliveira deve ser banida do futebol por ser simplesmente uma mulher... a dizer disparates sobre a futebol. A menos que...espera...A menos que só "homens do futebol" possam fazê-lo. Será isso? A julgar pelo que ouço em certos programas de TV, é bem capaz de ser uma daquelas regras de caserna...
O treinador do Leixões diz ter sido mal interpretado. É uma hipótese.
Em Guimarães, Marega também deve ter percebido mal o macaquear das bancadas, mas, na dúvida, decidiu abandonar o jogo em protesto. Resultado: durante a semana não se falou de outra coisa. E bem. E nem o senhor Ventura (que não o de Torga) desperdiçou a oportunidade de contaminar o debate sobre o racismo e a xenofobia que, como se sabe, não existem por cá desde os tempos de Eusébio, Coluna e Marcelino da Mata, claro.
O discurso do "futebol para homens" - de "barba rija"? - tem tanta atualidade e utilidade como acender uma fogueira dentro de casa para cozinhar. A menos que se viva numa gruta, é uma, entre outras frases, que servem apenas para motivar neurónios preguiçosos - quando existem - e almas rudimentares.
Convenhamos: há um futebol que precisa sair das cavernas (e até do armário). Esses, sim, são temas que dariam pano para mangas. Talvez o treinador do Leixões possa contribuir. As Sofias, os Josés e as Marias desta
vida agradecem.
