As estranhas palavras do banqueiro da Superliga e um lascivo Real "love" Barça
O CEO do banco JP Morgan defendeu, antes da Cimeira de Davos'2020, mais inclusão a todos os níveis. A Superliga Europeia, que pretendia financiar, era tudo menos inclusiva
É muito estranho ler o seguinte numa carta aberta de um banqueiro norte-americano: "O capitalismo deve ser modificado para fazer um trabalho melhor na criação de uma sociedade mais próspera, que seja mais inclusiva e crie mais oportunidades para mais pessoas". Não ponham em causa se o capitalismo o consegue ou não fazer. Não quero nem tenho vontade de discutir essa parte. Mantenhamos, apenas, o foco na intenção de quem o deixou escrito.
Estão tão de língua na boca que é bem possível que o Governo espanhol lhes peça para resolver as tendências independentistas da Catalunha
Um ano depois dessa carta aberta - prévia à Cimeira de Davos de 2020 e publicada na revista Time (ler aqui) -, recordemos que o autor é Jamie Dimon, bilionário norte-americano, chairman e CEO do banco JP Morgan, o mesmo que iria financiar a Superliga Europeia, a mesma que iria elitizar o futebol, a mesma que tornaria mais ricos os clubes mais ricos e mais pobres os clubes mais pobres. De incluso, isto tem muito pouco.
Sabemos hoje, no final de uma semana marcada pelo tremendo falhanço inicial da competição elitista, que o JP Morgan se preparava para financiar o arranque da mesma com 3.525 milhões de euros, recebendo de volta, ao fim de 23 anos - segundo a revista alemã Der Spiegel -, 6.100 milhões de euros. Um juro baixinho ao longo do tempo, digo eu. Estranham? Não estranhem, é normal quando o crédito é oferecido a quem já tem muito...
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No fundo, a operação financeira em si não tinha nada de anormal. Como até é louvável que os serviços de Jamie Dimon tenham hoje vindo afirmar a "má avaliação" do impacto inicial da Superliga. Um erro de avaliação também típico do banco que, entre outras coisas, foi um operador direto na conduta fraudulenta de Bernard Madoff, o gestor condenado a prisão perpétua em 2008 (falecido há dias) por ter criado um esquema de pirâmide financeira que tirou mais de 50 mil milhões de dólares a Wall Street. Isso entre outras manipulações financeiras com direito a multas de valores extraordinários (ler aqui).
Há muito que não via dois profissionais a fazer tão bem o papel de voz do dono
Entretanto, Florentino Pérez e Juan Laporta, presidentes do Real Madrid e do Barcelona, mantêm-se bem unidos. Estão tão de língua na boca que é bem possível que o Governo espanhol lhes peça para resolver as tendências independentistas da Catalunha. Ambos se apresentam ainda no papel de fundadores da coisa e até já reclamam indemnizações aos 10 emblemas que depois de retiraram. Será suficiente para zanga de comadres? Ver-se-á.
Este é o ponto da situação. Digamos que, ao nível da moralidade desportiva, safaram-se alguns treinadores e mesmo muitos jogadores. Mas dificilmente serão esquecidas as palavras de Tuchel (Chelsea) e Pirlo (Juventus) a meio da refrega. Há muito que não via dois profissionais a fazer tão bem o papel de voz do dono. Klopp (Liverpool) e Guardiola (Man. City), ao contrário, lideraram a contestação ao projeto.
Venham rápido os dias de sol, que ainda haverá muita roupa suja para lavar, neste processo.
