RUGIDOS DO LEÃO - A opinião de Samuel Almeida, aos domingos.
1 - A SAD leonina apresentou as suas contas anuais com um resultado positivo de 12 M€ e um saldo recorde de vendas de jogadores de cerca de 102 M€, dos quais 58 M€ referentes a Bruno Fernandes. É uma boa notícia, mas as boas notícias ficam-se por aqui.
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2 - As contas leoninas não são boas e apresentam diversos sinais preocupantes, a saber: (i) os rendimentos operacionais (sem vendas) ascendem a 68 M€, cerca de metade do nosso rival lisboeta, o que mostra bem o nosso atraso estrutural na geração de receitas correntes e o efeito do "gap" da Liga dos Campeões, o qual pode ser estimado em cerca de 60 M€ anuais; (ii) o resultado operacional (sem vendas) é negativo em quase 40 M€, ainda que a administração leonina se esforce por ajustar tal resultado para 19 em resultado da pandemia; (iii) os custos com pessoal ascenderam a 60 M€, para resultados desportivos desastrosos; (iv) o passivo corrente aumentou de 140 M€ para 146 M€, sendo que a diminuição de 21 M€ do passivo não corrente se deve em boa parte a reclassificações contabilísticas; (v) a dívida financeira passou de 149 M€ para 126 M€ em parte devido à reclassificação de um "leasing" (7 M€) e a utilização do "factoring" de créditos (7 M€); (vi) a dívida a fornecedores aumentou 8 M€, estando agora em 56 M€; (vii) e, por fim, os fluxos de tesouraria (diferença entre o que se recebe e paga) operacionais foram negativos em 53 M€, sendo que depois de transações com jogadores se cifraram em 15 M€ positivos, o que pode bem explicar o retardamento do pagamento ao Sporting de Braga, ao qual devemos cerca de 10 M€, matéria a que voltarei mais adiante. Não vejo razões para Frederico Varandas exultar.
3 - O que é que estes números nos dizem? Que as receitas correntes (e já estou a descontar os efeitos da pandemia) estão estagnadas e, nalgumas rubricas, abaixo de outras épocas, fruto do paupérrimo desempenho desportivo e do atraso estrutural do clube. Mas o que ressalta mais é o efeito devastador da ausência de resultados desportivos, em particular o acesso à Champions, que representa uma perda anual de cerca de 60 M€ de receitas e de entrada de dinheiro fresco e certo nas contas do clube. Sem Champions, o Sporting está obrigado a realizar cerca de 40 M€ a 50 M€ de vendas anuais em jogadores para cobrir o seu défice operacional e de tesouraria. Nas próximas semanas veremos certamente vários atletas saírem de Alvalade, pois nos próximos meses só teremos cerca de 20 M€ de TV e 18 M€ de patrocínios, estando por vender os bilhetes de época e havendo receita diminuta de merchandising. É um modelo insustentável, pois o clube está sem capacidade de investimento e em perda continua de competitividade, sendo que os encargos financeiros anuais já vão em 15 M€. É preciso outro modelo e projeto, sendo que já se constatou a total incapacidade e impreparação desta administração para dar a volta ao texto.
Já se constatou a total incapacidade e impreparação da administração
4 - A novela Rúben Amorim chegou finalmente ao fim, com o clube leonino a assumir na íntegra a dívida de 10 M€, mais 2,1 M€ de penalizações contratuais e juros, num total de 12,1 M€ mais IVA. Sobre esta matéria, resta-me apenas dizer que a administração leonina, em particular o seu CFO, foi de uma enorme irresponsabilidade. Importa recordar que a 16 de abril (um mês após o estado de emergência), Francisco Zenha veio afirmar que o Sporting não teria penalizações por falhar o pagamento ao Braga, fundando tal afirmação em argumentos de natureza legal. Ao assumir agora o pagamento de 2,1 M€ de penalizações, Zenha vem afirmar que o Braga foi o único clube que não aceitou renegociar e que temos, passo a citar, "de ser uns para os outros". Estas afirmações demonstram uma total impreparação e a assunção por parte da administração leonina de não dispor de fundamentos para retardar o pagamento. Ou foram mal aconselhados ou não sabem o que fazem e dizem, não sei qual das duas é a pior. Uma coisa é certa, esta brincadeira custou 2 M€ ao clube, sendo um ato desastroso de gestão, para não dizer outra coisa.
Notas finais. O tema do valor de comissões pagas voltou à agenda, demonstrando a falta de regulação internacional nesta matéria, registo de incompatibilidades e relações promíscuas entre clubes e agentes. Em Portugal, o primeiro-ministro e o presidente da CML resolveram fazer parte de uma Comissão de Honra de uma candidatura à presidência de um clube. A promiscuidade entre política e futebol não é boa conselheira e pode constituir um ativo tóxico a médio prazo. Em tempos de pandemia recomendava-se maior distanciamento social.
