DENTE DE LEÃO - Uma opinião de Marcos Cruz
Nas análises futebolísticas que pela esfera mediática se vão produzindo (e não raras vezes reproduzindo), é comum relembrarmos aquilo que escrevemos ou dissemos em dado momento e a passagem do tempo veio a confirmar, mas seria útil, mais útil até, para cada um de nós, recuperarmos também os erros que cometemos.
No meu caso são muitos, porque vivo isto de forma emotiva e às vezes escrevo em cima dessa emoção, mas vou escolher um como exemplo fulcral de oportunidade perdida para estar calado.
A derrota copiosa com o Ajax fez-me descrer um pouco da fibra dos meus, e eu, guiado pela expectativa, negligenciei na análise ao encontro alguns factos importantes: ser uma estreia na Champions para muitos jogadores, boa parte deles bastante jovens; o Sporting estar ainda a reconstituir-se, desportiva e financeiramente, de uma das páginas mais negras da sua história; a própria estrutura não ter uma experiência e um peso propícios ao conforto nestas andanças; o Ajax apresentar outra tarimba ao mais alto nível, possuir um plantel de luxo e um treinador de excelência, e por aí fora. Não fosse a conferência pós-jogo de Rúben Amorim e era provável que eu me tivesse espalhado ao comprido na crónica que aqui assinei, mas mesmo assim atirei uma achas para a fogueira.
Ora bem, quando terminou o jogo com o Dortmund que nos deu os oitavos-de-final e o nosso treinador respondeu a um jornalista que o momento em que se sentiu mais sportinguista foi o da derrota frente ao Ajax eu senti-me excluído, autoexcluído, porque Amorim agradecia ali o apoio constante dos adeptos apesar da goleada sofrida, que considerou como decisivo ponto de viragem na carreira da equipa, e eu pus-me de fora, apontando dedos. Nada de extraordinário, a vida continua a fazer-nos aprender, é um bom sinal. E a circunstância favorece, de facto, essa aprendizagem, porque Rúben Amorim parece saber sempre como reagir acertadamente, talvez até mais do que agir, daí às vezes, quem sabe, termos de esperar, dentro das quatro linhas, pela expressão do comportamento do adversário para impormos o nosso.
Seja como for, está ali um homem sábio que, na opinião de muitos, é hoje o maior sustentáculo dos sonhos a verde e branco. E isso só me preocupa por uma coisa: apesar de Rúben dizer que quer ficar muitos anos e até pensa em renovar, todos nos lembramos da cadeira de sonho de Villas Boas. O futebol muda a uma velocidade vertiginosa e as dependências são, também por isso, de rejeitar. É bom que Pote ressurja em brilho, como outros, para que Amorim esvazie um pouco da aura messiânica que agora transporta. E, enquanto ele está connosco, há que aprender com ele.
