Casillas falou sobre a cidade do Porto. Os Portuenses agradecem. Até acho que todos agradecem, mesmo os que, no futebol, defendem outras cores que não as do guarda-redes espanhol.
Há dias, numa discussão privada e algo brincalhona sobre política e cidades, daquelas em que não é nada contra Lisboa mas tudo contra o centralismo da capital, um dos intervenientes sugeriu a construção de duas estátuas no Porto: uma ao dono da Ryan Air e outra a Iker Casillas.
Num misto de gastronomia regada a preceito e alguma memória não descartável, lá concluímos que o senhor irlandês não estava tão merecedor quanto isso, porque os voos que então vieram para o Porto teriam, numa fase inicial, o objetivo de servir o turismo de Lisboa a baixo custo. A operação da companhia aérea, rezam algumas teorias, só estacionou no Porto porque, na altura, a infraestrutura de Vigo era mais cara e não servia Madrid como o Porto poderia servir Lisboa. Sem certezas sobre a matéria e com a dúvida instalada, desistiu-se da primeira ideia.
"Isso rebenta de orgulho quem vive a cidade como os Portuenses a vivem, que não querem saber quanto paga à cozinheira"
Focámo-nos, então, na questão da estátua a Casillas. Claro que a maior parte dos presentes se manifestou contra celebrações permanente e fisicamente ligadas ao granito durante o ciclo de vida de qualquer humano. Abandonámos, por isso, a ideia de uma qualquer mármore desenhada com as formas do guardião espanhol. Todos, mesmo os benfiquistas e os sportinguistas presentes, tinham essa temível particularidade em comum: nados e criados no Porto.
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Vem isto a propósito das mais recentes declarações do jogador do FC Porto sobre a cidade que o acolheu. O envolvimento de uma personalidade globalmente reconhecida é, como se sabe, o melhor dos fatores associados ao marketing territorial. E, por aqui, pela Invicta, há uma forma discretamente peculiar de lidar com as estrelas. Ou elas connosco.
Disse ontem Casillas ao Porto Canal, a propósito da sua vinda em 2015: "Foi uma enorme surpresa. O Grande Porto reúne uma série de qualidades impressionantes. Conhecendo a história, dás conta de que não te arrependes dessa decisão. Estou encantado por poder desfrutar dela". Seriam só palavras se todos já não o tivéssemos constatado.
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Ao contrário de outras "madonnas", Casillas encarnou a alma subtil da cidade, deita-se, acorda, come e vive sem complexos o Porto, sem estrelatos ou excessos. E isso rebenta de orgulho quem vive a cidade como os Portuenses a vivem, que não querem saber quanto paga à cozinheira (se é, sequer, que a tem) ou quantos carros estaciona em garagem própria ou não. Pouco sabemos da sua vida, mas não é assim que deve ser? Sabemos o que mostra. E o que mostra - basta visitá-lo nas suas contas pessoais nas redes sociais - é simples, digno e dedicado.
Na parte mais pessoal da entrevista de ontem não proferiu palavras de circunstância. As que entoaram não estavam estudadas, são de vivência; não foram ditadas, saíram-lhe pelo goto. E por isso tem o respeito de todos, sejam lá quais forem as cores de cada um.
