Domingos Soares de Oliveira, administrador do Benfica, aludiu à criação de uma compensação dos clubes portugueses nas provas europeias aos que lá não jogam. Mas um estudo revelado pela FPF, em finais do ano passado, já fazia referência a esse mecanismo solidário
Ainda há dias li um belíssimo texto, aqui n'O JOGO, no qual José Mourinho, numa muito pessoal vénia a Artur Jorge, desabafava: "Injusta, a nossa típica memória curta". Digo eu: ainda mais curta quando se trata de futebol. E curtíssima, quando se trata de fazer notícias a correr, porque o mundo de hoje não se compadece com a razoabilidade dos factos, mesmo estes já não serem hoje, à custa das "realidades alternativas", o que eram há uns anos: apenas factos.
Não foi assim que o ficámos a conhecer nos primeiros dias de novembro, em vários jornais e por várias fontes
Isto a propósito da taxa solidária a que se referiu Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, na semana passada, e que passa pela distribuição de parte das verbas conseguidas pelos emblemas portugueses nas competições europeias por aqueles que nelas não participam. Uma declaração feita num timing muito político do Benfica, que apresenta muitas dezenas de milhões de lucro, ao contrário do principal rival, com muitas dezenas de milhões de prejuízo. Uma espécie de um ponto de ordem na semana do ponto de distância ao pódio, no culminar dos sete pontos perdidos para o rival. É difícil dissociar todos esses factos.
Independentemente das rivalidades - quem me dera que fosse só rivalidade, embora ainda consiga jantar e divertir-me com amigos de emblemas diferentes -, há relevâncias - factos, portanto - por detrás da magnificência latente nas declarações do administrador do Benfica, que, por si só, alegaram um facto: o Benfica propôs...
Comecemos pelo que disse: "Isto não é conhecido em Portugal, mas partilhámos esta ideia com a Federação Portuguesa de Futebol. Ao participarem nas competições europeias, os clubes portugueses doariam parte das suas receitas".
Bem, primeiro: o assunto foi conhecido em Portugal. O que não terá sido do conhecimento do público é que terá sido uma ideia do Benfica, a acreditar no seu administrador. O assunto - a taxa solidária - foi devidamente divulgado pelos principais Media, logo após a apresentação pela FPF aos clubes, a 17 de outubro de 2019, do seu (da federação) plano de sustentabilidade do futebol português.
Segundo: foi dado a conhecer pela FPF como resultado de um estudo da autoria da própria federação, com o apoio da consultora McKinsey. Matéria que está plasmada no documento, a que O JOGO teve acesso, na alínea "Alinhamento total quanto à necessidade de implementar mecanismos de solidariedade sendo necessário desenhar e alinhar uma proposta concreta". Nesse pressuposto, é considerado um período até 2029 (quando vence o último dos contratos televisivos domésticos) para implementação desse mecanismo de redistribuição de parte das verbas conquistadas pelos emblemas portugueses na Champions e Liga Europa.
Domingos Soares de Oliveira e o Benfica, às tantas, até podem reclamar a paternidade da ideia. O problema - lá está: memória! - é que essa ideia fora antes reclamada pelo estudo federativo. Mas, então, está no estudo por ideia do Benfica? Não foi assim que o ficámos a conhecer nos primeiros dias de novembro, em vários jornais e ouvidas várias fontes. Bem, mas então de quem foi a ideia? Ou isso não interessa, excepto o facto de poder ser usada politicamente pelo Benfica? E se a ideia foi da Federação, isto foi só para ficar bem na fotografia ou por sobranceria económica sobre os demais?
