A Superliga caiu. Mas volta? É provável que sim. A ganância nunca morre e certos modelos de gestão nunca estão satisfeitos. A verdade é que a própria UEFA há muito que anda a elitizar a Liga dos Campeões
A propósito desse sonho elitista que foi a Superliga europeia: querer argumentar pelo lado da saúde financeira das empresas que gerem os históricos emblemas, que se entregaram a esta histórica infâmia, e que terá terminado com uma histórica humilhação, é fazer parte de um sistema que defende tudo menos a meritocracia, tudo menos o desporto e tudo menos a lealdade competitiva.
Esta tentativa desesperada tudo teve a ver com este número: 2.753,8 milhões de euros, a soma dos passivos dos 12
Saber o resultado final de contas num excel não é jogar futebol. Nem é defender o futebol.
Porém, uma leitura maniqueísta do sucedido em nada ajuda as centenas de milhar de pessoas que dependem profissionalmente desta modalidade por essa Europa fora. Isto não foi uma vitória do Bem contra o Mal. Muito menos foi uma vitória da UEFA e dos adeptos contra os gananciosos e poderosos.
Não foi uma vitória de um princípio sobre o outro, embora se pareça muito com isso, pois, apesar de tudo, o organismo que tutela o futebol no Velho Continente ainda não acabou de vez com aquilo de que fez bandeira: a meritocracia desportiva, a possibilidade de todos poderem competir e de todos, sem exceção, poderem um dia chegar ao ponto mais alto do futebol.
Aliás, o próprio modelo de Champions apresentado pela UEFA para dois triénios, a partir de 2024, é suficientemente elitista para condicionar competidores, quer beneficiando umas ligas em detrimento de outras, quer distribuindo mais riqueza por aqueles que são cada vez mais ricos. Não, não foi uma vitória do Bem contra o Mal. Mas foi um aviso dos grandes.
É num justo e leal cenário de pirâmide meritocrática que a UEFA e as entidades organizativas e reguladoras, como as federações e as ligas, devem trabalhar de forma ainda mais intensa
Não podemos esquecer que mais de 90 por cento dos jogadores que fazem do futebol profissão não têm os salários das vedetas ou daqueles que estão nos melhores patamares. Mas também não sou dos que defende tetos salariais. Sou até dos que acham que o mérito também medra pela ambição pessoal, desde que esta seja leal e legal.
É num justo e leal cenário de pirâmide meritocrática que a UEFA e as entidades organizativas e reguladoras, como as federações e as ligas, devem trabalhar de forma ainda mais intensa. Desde logo, para impedir que os clubes/sociedades desportivas com menos recursos fiquem reféns de empréstimos de jogadores e de negócios pouco claros, de empresários com poucos escrúpulos e de gestores que batem no símbolo com uma mão e remexem os bolsos com a outra.
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O que aconteceu, esta tentativa desesperada de uma dúzia de emblemas que tudo têm para ser mais serenos, teve a ver com este número: 2.753,8 milhões de euros. É a soma dos passivos destes 12. Pelos vistos, são tão bons gestores que só conseguem manter a saúde financeira dos seus clubes com benefícios de elite. São estes que enganam os adeptos todos os dias. Não enganaram de domingo a quarta? Não. Mas isso foi a exceção.
Se isto fosse uma vitória do Bem contra o Mal, a UEFA recuaria, também, na remodelação da Liga dos Campeões, para não a tornar tão elitizada. Mas isso iria chatear mais do que 12, embora muitos menos do que todos. A equação nunca é fácil, quando o dinheiro manda.
