A solidão do guarda-redes é coisa séria. Vive dentro de um retângulo emocional
Um artigo de opinião de Ricardo Nascimento
Guarda-redes é uma profissão estranha. No futebol, toda a gente quer marcar golos; o guarda-redes quer impedir. Toda a gente corre para a frente; ele passa a vida a recuar. A equipa vive obcecada com a baliza adversária; ele vive em união de facto com a sua. E, no fim, quando tudo corre bem, é porque "a equipa esteve sólida". Quando corre mal, é porque "o guarda-redes podia ter feito mais". É um cargo de grande responsabilidade e de pequena gratidão.
O avançado pode falhar três golos cantados e no quarto marca e toda a gente grita "agora sim!"; o guarda-redes falha um cruzamento e fica imediatamente com a carreira em "situação de risco elevado", como se fosse um prédio com fissuras. A baliza é o único local onde o erro não é uma estatística - é uma humilhação pública com repetição em câmara lenta e comentários do primo que não percebe nada de bola.
Na verdade, todos acham que como o guarda-redes é o único praticante autorizado a jogar com as mãos, pode sempre agarrar o problema, literalmente. Um privilégio que, como todos os privilégios, vem com uma suspeita: "ele agarrou porque é fácil". Fácil. Pois.
A solidão do guarda-redes é uma coisa séria. Ele vive dentro de um retângulo emocional onde, durante longos minutos, não acontece nada - e depois, de repente, acontece tudo. É um trabalho feito de tédio e pânico, que é basicamente a definição da vida adulta. Um guarda-redes precisa de concentração zen, mas também precisa de reflexos, coragem e uma espécie de fé laica: a crença de que, se sair da baliza, não vai ficar a meio caminho como quem vai buscar pão e se lembra, a meio da rua, que não tem carteira.
E há o momento cruel: quando a equipa está a perder e começa o ritual do "guarda-redes a subir nos cantos". É o instante em que o futebol admite, com honestidade comovente, que já não sabe o que fazer. "Sobe tu." É como numa família em crise: "fala tu com a tua mãe". E lá vai ele, o homem que passou 90 minutos a evitar golos, tentar marcar um - como o Trubin, na Champions, a provar que, em desespero, até o guarda-redes vira ponta-de- lança por empréstimo. A humanidade é isto: passamos a vida a especializar-nos numa coisa e, no desespero, pedem-nos exatamente o contrário.
No entanto, quando um guarda-redes é grande, há ali qualquer coisa de épico. A defesa impossível não é só uma jogada: é uma suspensão breve das leis da física e da nossa tendência para a desgraça. Um grande guarda-redes não salva apenas golos; salva estados de espírito. Há defesas que são três pontos e terapia incluída.
No fundo, o guarda-redes é o último romântico do futebol: o homem que aceita viver com o erro à flor da pele para poder ter, uma vez ou outra, o direito de ser herói por segundos. E é esta a vida difícil do tipo com luvas, que sabe que a glória é curta e a culpa é longa.

