BOLA DE TRAPOS - A opinião de Miguel Carvalho, aos domingos n'O JOGO.
Tendo em conta o facto de o Sporting já ter reservado a rotunda do Marquês para festejar o ansiado título de campeão que lhe escapa há 19 anos, talvez a memória dos tempos pré-Frederico Varandas pareça longínqua. Mas é bom lembrá-la antes que a vertigem das celebrações engula tudo, memória incluída.
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A ascensão da atual liderança do clube representa um antes e depois quase revolucionário para os lados de Alvalade. Antes dessa alvorada - e isto é preciso dizê-lo com todas as letras - os "leões" viveram uma longa e sinistra madrugada da qual ainda foram a tempo de se arrepender, embora com custos financeiros e morais de grande calado. Na verdade, nenhum clube está livre de ver ascender a posições de liderança certos malabaristas dos negócios esconsos, antigos "chefes" de claque de ar gaseado ou transformados, graças a instituições de ensino de "pronto a vestir", em "turbolicenciados" com ambições a administrar uma SAD qualquer ou, pelo menos, influenciar quem manda. O difícil é vencê-los. Ou, pelo menos, mantê-los longe das "bolachas".
Não conheço o presidente do Sporting e, como dizia o outro, também nunca me foi apresentado. Mas, graças a ele e a quem o rodeia, vão longe os tempos de trincheiras assanhadas, de narrativas estapafúrdias e megalomanias com pés de barro, sem ronha nem açaime. Só por isso, já lhe devo o meu agradecimento enquanto adepto de futebol. De facto, o Sporting de Frederico Varandas não precisou de envenenar nem extremar ainda mais o clima do futebol português para afirmar uma liderança e um projeto. Não recorreu à política do enxofre, não comprou guerras fora da lei nem se desgastou em batalhas incendiárias das quais só poderia ser chamuscado. Pelo meio, ainda contribuiu para a barrela necessária dos que, no interior do clube, eram doutorados na chafurdice do submundo ou especialistas em minas e armadilhas. Se sobram alguns, estão anestesiados.
Não se pode dizer que este Sporting respire saúde financeira nem garantir que se libertou de vez dos contágios e personagens de outras épocas, geridas e guiadas como se ao volante estivesse um tresloucado a circular em sentido proibido na via rápida e, ainda por cima, sem travões. Mas pode dizer-se que Alvalade começou a ganhar quando blindou o presente - e o futuro próximo - a tentativas messiânicas tão em voga noutros contextos, tão ilusórias quanto pérfidas, e nisso foi respaldado por sócios e adeptos de uma lealdade que já vai sendo rara por esse mundo fora. Porém, o facto de serem os mesmos que, em anos anteriores, deram o seu voto a pantomineiros desvanecidos consigo próprios obriga a cautelas, pedagogia e sabedoria por esses anos fora.
A escolha do treinador Rúben Amorim - alvo de ataques à sua condição para exercer o ofício que remetem para o velho e relho País de doutores e engenheiros que adora cenáculos e palanque académico - e a aposta num plantel ao qual os entendidos demoraram a outorgar qualidade, talento, raça e devoção para chegar onde chegou constituem um exemplo e uma mensagem para os seus mais diretos adversários
A escolha do treinador Rúben Amorim - alvo de ataques à sua condição para exercer o ofício que remetem para o velho e relho País de doutores e engenheiros que adora cenáculos e palanque académico - e a aposta num plantel ao qual os entendidos demoraram a outorgar qualidade, talento, raça e devoção para chegar onde chegou constituem um exemplo e uma mensagem para os seus mais diretos adversários. Uma equipa que, além disso, consegue resgatar, dos escombros, o uruguaio Sebastián Coates, ao ponto de ele se exibir como exibiu esta época, só pode ter um balneário de fazer inveja.
Há, pois, muito para ler nas entrelinhas do triunfo desta ideia de Sporting. Até para desbravar caminhos de sobrevivência para o futebol português, quem sabe. De resto, é difícil especular sobre os efeitos que a pandemia e a forçada ausência de público tiveram na mais que provável conquista do campeonato. Terá ajudado a evitar a pressão de liderar a liga? Terá impedido que o Sporting se destacasse mais cedo na frente? Todas as conjeturas são possíveis. Uma coisa é certa: este Sporting não merecia festejar a conquista do campeonato num estádio às moscas, sem alma nem glória, e num País ainda a desconfinar lentamente. É demasiado cruel para tanta vontade de fazer bem. E ainda sobreviver a isso.
