DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.
Tinha pensado falar aqui sobre a estranheza deste tempo, em que o Benfica joga com o Arsenal em Roma e os jogadores das duas equipas têm a mesma coisa escrita nas camisolas.
Tinha uma crónica toda pensada, cheia de possibilidades literárias e filosóficas, a partir do que Tony Judt diz a propósito da crise da ideia de comunidade e de identidade coletiva neste nosso período histórico - avança o pensador inglês que, há pouco tempo, ninguém se lembraria de pespegar anúncios às camisolas dos jogadores da bola porque a "cacofonia de cor e texto daí resultante prejudicaria a unidade visual da equipa".
Tinha a coisa quase escrita, pois, mas o jogo com o Arsenal perturbou-me de tal maneira que me vejo obrigado a descer à terra para chamar os bois pelos nomes.
"Devíamos ter aguentado o resultado", diz Jorge Jesus, referindo-se ao 1-0 que conseguimos, de penálti, com o Arsenal. A verdade é que essa forma de pensar é que nos puxa para baixo. Aliás, nessa quinta-feira europeia, não fizemos outra coisa. Entrámos em campo logo com esse mesquinho desígnio de "aguentar o resultado": defender o nulo inicial o máximo tempo possível, que triste...
Sim, um desenho de três centrais pode ser uma tática atacante - uma forma de libertar os laterais-alas, abrindo o jogo, alargando o espaço e complicando os policiamentos defensivos do adversário. Mas aquele modelo concreto de 5-1-2-2 que Jorge Jesus definiu para a primeira mão, em casa, com o clube inglês, foi uma solução de equipa pequena, acossada, medrosa. O Benfica não é isto, caramba! Diz tudo sobre o que foram os futebóis no relvado que a opinião dominante em relação à partida seja do tipo "ufa, um empatezinho foi bem bom"...
Mas também diz muito, infelizmente, sobre o prejuízo que a receita "Luís Filipe Vieira & Jorge Jesus" - o ziguezaguismo populista de braço dado com o bazofismo derrotista - inflige ao prestígio internacional do Glorioso. O quê, não bastava perdermos tudo o que tínhamos para ganhar esta época, ainda temos de jogar a medo na Liga Europa? O "Ferrari" de 100 milhões que ia arrasar em Portugal e na Liga dos Campeões não consegue ir para cima do décimo classificado do campeonato inglês?
Claro que há maneiras de ver o lado positivo deste empate em casa na primeira mão: pelo menos, não perdemos... Ou, noutra versão: não é muito mau conseguirmos contra o Arsenal o mesmo resultado que tínhamos conseguido contra o Moreirense... Não e não! O Benfica não é isto, não podemos deixar que façam isto ao nosso Benfica, caramba. Isto já nem é um "fim de ciclo", é o fim da picada. E, entretanto, hoje, há jogo com o Farense. Podemos abrir um parêntesis nesta derrocada miserável, por favor?
