RUGIDOS DO LEÃO - O Sporting não precisa de um dono, precisa, sim, de uma liderança forte e de um novo modelo associativo.
Nas últimas semanas tem crescido na surdina a discussão sobre uma potencial venda da maioria do capital da SAD a investidores estrangeiros. O argumento é simples: perante as dificuldades que a sociedade atravessa e com a perda de competitividade do futebol profissional, a solução evidente seria uma injeção significativa de capital no clube, com a promessa de novas unhas e treinador de classe mundial. Outros falam na ingovernabilidade do clube e necessidade de termos um dono.
Vou ser claro sobre esta matéria: enquanto sócio e acionista do clube e da SAD, oponho-me determinantemente a esta solução, a qual pode, inclusive, pôr em risco a sobrevivência do clube tal como o conhecemos. Vou explicar os fundamentos da minha posição, que creio ser a posição de larga maioria dos sócios do clube.
Desde logo, importa referir que a SAD do Sporting é o coração do Sporting Clube Portugal, onde se concentra boa parte do seu ADN de grande clube, sua história e sua glória. Não é, pois, um ativo que se possa vender sem mais nem menos, muito menos a investidores individuais que veem no futebol a oportunidade única de fazer dinheiro fácil, ou mesmo legalizar fundos cuja origem é mais que duvidosa. Mas, sobretudo, não podemos correr o risco de uma cisão entre clube e SAD, como se uma e outra não fossem a mesma realidade. Existem exemplos vários no futebol nacional do risco que tais apostas representam para a sobrevivência dos clubes. Veja-se o Beira-Mar ou mais recentemente o histórico CF Belenenses, obrigado a recomeçar nas distritais numa luta esquizofrénica entre clube e SAD.
"O Sporting não precisa de um dono, precisa, sim, de uma liderança forte e de um novo modelo associativo"
Depois, o Sporting não precisa de um dono, precisa, sim, de uma liderança forte e de um novo modelo associativo, o que implica uma profunda reformulação dos estatutos do clube. Este é o timing e a oportunidade. E precisa de reformular o seu modelo de governo, definindo de forma clara incompatibilidades, separando órgãos executivos e de gestão e dando forma e força a um verdadeiro conselho estratégico que possa acolher no clube diversas sensibilidades e parceiros. É preciso envolver na gestão do clube e SAD investidores e sponsors, criando valor e tornando mais atrativo e seguro o investimento no clube.
Por fim, não se vende em baixa. A SAD atravessa dificuldades de tesouraria óbvias e a marca Sporting sofreu um forte abalo com os episódios do verão passado. É preciso modernizar o clube, a sua estrutura profissional de gestão, criar valor e equilibrar o orçamento do clube que neste momento gera um défice anual de mais de 30 milhões de euros. Só depois de feito este trabalho poderemos ponderar a entrada no capital de um parceiro internacional institucional, em que seja possível criar sinergias e apostar em dotar a marca Sporting de uma dimensão global - imagine-se um parceiro tipo Red Bull.
O Sporting não precisa de salvadores, predadores, notáveis ou líderes assentes no populismo e na divisão da massa associativa para governar. O Sporting precisa de paz, competência e liderança. E precisa de uma visão que volte a dar esperança a uma massa associativa angustiada por não vislumbrar de forma clara um futuro à altura da grandeza do clube. Este também será um tempo de clarificação, entre aqueles que colocam o Sporting sempre acima dos seus interesses pessoais, e aqueles que teimam em achar que têm um direito natural ou adquirido de interferir na vida do clube. No Sporting, os únicos notáveis são a sua história, seus atletas e um legado que enche de orgulho vários milhões de portugueses.
Nota final: Bas Dost é um ativo valioso do clube. Será que ninguém no clube é capaz de defender publicamente o atleta?
