DRAGÃO DO SUL - A opinião de Paulo Baldaia, aos domingos n'O JOGO.
A Jorge Jesus acontece muitas vezes ver um jogo que mais ninguém viu. Há nele uma arrogância que o leva a desrespeitar muitas vezes os adversários. Dizer, por exemplo, que, "desta vez, não houve Corona" só é possível para quem estava distraído e convencido que quando o mexicano pegasse na bola do outro lado entravam os karatecas e o árbitro que tudo permitiria.
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Acrescentar que foi o jogo "mais fácil que fez no Dragão" só revela o trauma de quem já teve de se ajoelhar perante milhares de adeptos que gritavam a conquista de mais um título (um de três seguidos, com apenas uma derrota nesses três campeonatos, sendo Jorge Jesus treinador do Benfica).
Antes de avançar com este texto em que Corona é o centro da conversa, convém deixar claro que, para qualquer adepto portista, o jogo de sexta-feira teve um sabor agridoce. Ninguém gosta de ver o Benfica jogar de peito aberto, num jogo em que qualquer uma das duas equipas podia ganhar. Num FCP-Benfica ou num Benfica-FCP, o normal é o o FCP dominar e ganhar. Isto é o que um adepto portista quer para ficar satisfeito, mas também sabemos ficar agradecidos pela entrega dos jogadores que, mesmo com menos um, nunca desistiram de ganhar.
Na verdade, deveriam ter sido os encarnados a jogar com menos um. Taremi foi bem expulso, mas Nuno Tavares e Pizzi não podiam ter acabado o jogo. A partir daqui, demonstrando-se como o Benfica deveria ter ficado a jogar com nove, também se consegue perceber o papel de Corona e a incapacidade do treinador encarnado de ver o que aconteceu à frente dele.
Aos dois minutos, Pizzi acertou um golpe com a mão na cara de Corona e o árbitro devia tê-lo avisado e, aos oito minutos, devia ter visto o primeiro amarelo, quando cortou, sem qualquer intenção de jogar a bola, uma jogada de Marega, que deixou o maliano mal fisicamente durante quase toda a primeira parte. Aos 50 minutos, tinha de ter visto duplo amarelo (por chutar a bola contra Sérgio Oliveira no chão e por se envolver com Pepe que também viu o amarelo). E, finalmente, aos 57 minutos, deveria ter visto o segundo amarelo (que já era o quarto!!!) na sequência de uma falta por trás sobre Corona. Os comentadores de arbitragem foram unânimes nesta análise.
Nuno Tavares deveria ter visto o primeiro amarelo, com poucos minutos de jogo decorridos, por uma entrada bem feia por trás sobre Corona, atingindo-o com uma joelhada na coxa. Aos 38 minutos, dá uma cotovelada na cara do Corona para ganhar uma disputa de bola (Ricardo Rocha, ex-jogador do Benfica, diz em directo na Sport TV que Nuno Tavares "quer ganhar a posição e acaba por colocar o cotovelo na cara do Corona"). E o mesmo comentador reconhece que o mesmo jogador do Benfica volta às cotoveladas, dizendo aos 45 minutos que "Nuno Tavares acaba por saltar primeiro que Marega e depois no movimento ascendente de Marega acaba por acertar com o cotovelo na cabeça", acrescentando "mas claramente é falta". Foi preciso esperar pela segunda parte (53 minutos) para Nuno Tavares ver o primeiro amarelo (que já era o quarto!!!), que devia ter sido vermelho direto porque vai com os pitões ao tendão de Aquiles de Corona, esticando o pé e virando a sola para cima, sabendo que não tinha hipótese de jogar a bola. O lance não é tão evidente como o lance do Taremi, mas é igualmente perigoso e o VAR tinha a obrigação de ver.
Aconselho Jesus a ver as jogadas que aqui assinalei. Talvez assim perceba que uma taxa de bazófia muito alta o afasta sempre da realidade
Aqui chegados, aconselho Jorge Jesus a ver uma por uma as jogadas que aqui assinalei, juntando-lhe a que deu o golo do FCP, com Corona a fazer o lançamento, a ir receber a bola mais à frente e a fazer a assistência para Taremi e muitas outras, como a assistência para Díaz que quase deu golo ou a jogada em que Vertonghen viu o amarelo por mais uma falta dura sobre Corona. Talvez assim, Jesus perceba que uma taxa de bazófia muito alta o afasta sempre da realidade. Sentenciou que "desta vez não houve Corona e Marega, houve Benfica", mas pode verificar que houve muito Corona no jogo e que, por acção dele, deveria ter havido menos Benfica, para ser mais exacto menos dois jogadores do Benfica.
