O futebol infantil transformou-se numa espécie de MBA com caneleiras. Há relatórios, avaliações trimestrais, planos individuais de desenvolvimento e pais a filmar jogos como se estivessem a documentar uma estreia europeia
Há um tempo, não muito distante, o futebol começava na rua, passava pelo recreio da escola e só depois, se tivesse de ser, chegava a um campo com linhas direitas. Jogava-se para ganhar, claro, mas sobretudo para jogar. Errava-se muito. Ria-se ainda mais. E ninguém perguntava o "potencial de mercado" do miúdo que passava a tarde a fazer "cuecas" aos amigos.
Hoje, o futebol começa cedo. Cedo demais. O futebol infantil transformou-se numa espécie de MBA com caneleiras. Há relatórios, avaliações trimestrais, planos individuais de desenvolvimento e pais a filmar jogos como se estivessem a documentar uma estreia europeia. Aos oito anos já se fala em "perfil", aos dez em "projeto", aos doze em "gestão de carreira". A infância ficou algures entre um aquecimento orientado e uma conversa séria ao intervalo.
As academias multiplicaram-se, os métodos refinaram-se, as intenções são, na maioria dos casos, boas. O problema não é a qualidade - é o excesso. O talento passou a ser tratado como porcelana fina: toca-se pouco, move-se com cuidado, expõe-se cedo. Já ninguém manda rematar: pede-se tomada de decisão. O erro, esse velho professor do futebol, tornou-se quase clandestino. Um mau jogo pesa. Uma decisão errada marca. Driblar é "arriscar". Inventar é "decidir mal". Uma tarde menos boa vira "alerta".
O resultado vê-se em campo. Os miúdos aprendem a jogar bem antes de aprender a jogar de forma livre. Executam com rigor, cumprem com zelo, mas hesitam no improviso. Sabem onde estar, mas nem sempre sabem o que inventar. O futebol ficou mais limpo, mais organizado - e, paradoxalmente, menos criativo. A rua, essa escola sem currículos nem rankings, foi sendo substituída por campos sintéticos e horários rígidos.
Claro que há exceções. Há sempre. De vez em quando aparece um miúdo que não leu o manual: dribla quando não deve, falha sem pedir desculpa e diverte-se ostensivamente. Esses incomodam. São os últimos resistentes de uma espécie em vias de extinção - crianças a jogar futebol como se fosse, imagine-se, um jogo.
A tendência, no entanto, é clara: crianças a carregar expectativas de adultos, a jogar com medo de falhar, a pensar mais no próximo passo do que no lance que está a acontecer. Crianças a jogar futebol como quem já tem Linkedin. Como se o futebol fosse um estágio permanente para um futuro que pode nunca chegar.
Talvez seja tempo de devolver tempo ao tempo. De aceitar que nem todos chegarão lá e que isso não é um fracasso. Porque o futebol não precisa apenas de formar jogadores. Precisa, sobretudo, de formar pessoas que gostem de jogar. E isso começa na infância. Ou, pelo menos, devia começar aí.

