Podia ser uma bota para descalçar. Mas não, só o seria se o caminho escolhido não fosse o atual. Mas a pedra no sapato faz mancar... e muito
Há duas expressões tipicamente portuguesas que podiam ser aplicadas à II Liga de futebol: a "pedra no sapato" ou o "descalçar a bota". Ambas sintetizam problemas. A diferença está nos detalhes. A pedra no sapato indicia que algo impede um caminhar tranquilo. Já o descalçar a bota admite que a escolha da mesma não foi ajustada ao caminho a percorrer.
Tema recorrente nas discussões mais ou menos secretas de presidentes e seus conselheiros jurídicos
E, quando se olha para fatores vitais relacionados com a II Liga, como a competitividade e a sustentabilidade, dificilmente se consegue escolher: tira-se a pedra ou descalça-se a bota?
A grande intervenção na II Liga, nos últimos anos, foi a redução de 24 (em 2015/16) para 18 equipas, o atual quadro competitivo. Parece-me que não há botas para descalçar, portanto. Mas este quadro, pela pena ou pela voz de mediáticos fazedores de opinião, poderia agora ser alterado por causa da pandemia. Uns asseguram que o melhor caminho é ninguém descer e aumentar-se, de novo, para 20 emblemas, acrescentando dois que poderão subir do Campeonato de Portugal.
Isto tudo no condicional, pois só a Direção-Geral da Saúde decidirá se há futebol até ao fim dos campeonatos. Outros, mais ousados, sugerem a fusão da II Liga com o CdP e um modelo de competição por séries. Ambas as sugestões parecem, porém, não encontrar grandes adeptos entre as direções dos emblemas da II Liga, apesar de ser tema recorrente nas discussões mais ou menos secretas de presidentes e seus conselheiros jurídicos.
Pois bem, se a competitividade é relativa - nem imaginam o quão competitivo eu era nos cobertos do Liceu Alexandre Herculano -, já a sustentabilidade é mensurável. E por aí, os clubes da II Liga optam pela via profissional. Dependem mais de si próprios, apesar da crise que se avizinha. Já agora, ao contrário de outras competições, a II Liga não apura para as eurotaças e, num quadro em que não se pudesse terminar a competição, só seria cenário de ruído por causa das duas equipas que teriam de descer. Portanto, é só uma pedra no sapato. Resta é saber no sapato de quem.
