DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.
Esta época, a doença do futebol do Benfica já teve vários diagnósticos.
De uma maneira ou de outra, os "sintomas" passaram (ou calaram-se os "médicos", o que vai dar ao mesmo)
Consoante o momento e o "médico", o problema já esteve no centro da defesa (que seria lento, instável), nas laterais (que não dariam garantias sem bola), no meio-campo (que seria molinho), nos alas (que não pressionariam), no centro do ataque (que claudicaria na hora H) e até na baliza (onde haveria um problema de pés).
De uma maneira ou de outra, esses "sintomas" passaram (ou calaram-se os "médicos", o que vai dar ao mesmo), mas o jogo do Benfica ainda não está livre de reticências... Segunda-feira, ganhámos ao Marítimo, pois. Fizemos um golo num penálti "desconfinado" e falhámos bolas básicas para balizas escarrapachadas. Sim: depois desses noventa minutos, quem seria capaz de dizer que os nossos futebóis não continuavam a parecer adoentados e infelizes?
Faltou pontaria, sim. E velocidade, pois. Mas foi pior: faltou aquele "não-sei-quê" que cola os movimentos treinados para cada posição. Aquilo que os especialistas designam por "filosofia de jogo" e que os adeptos conhecem como "chama". Faltou o que tem vindo a faltar: estilo, personalidade, caráter.
Fizemos boas jogadas, bons golos e nunca tirámos o pé do acelerador. Deixem-se de "pragmatices", caramba - isto é que é futebol
Há quem ache que jogar com passes que se adivinham um minuto, uma eternidade antes, é sinal de futebol moderno e "pragmático". Confesso que tenho problemas até com a palavra. Uma espécie de reação alérgica. No futebol como na política, "pragmatismo" costuma ser um eufemismo para falta de ideias, falta de visão. Além do mais, jogar pragmaticamente acaba quase sempre por dar asneira. Se há coisa que o meu coração de adepto sabe, é que a jogar só para os pontos corremos o risco de nem os pontos conseguirmos.
A história de ontem com o Paços de Ferreira foi outra. Claro que a coisa ficou mais fácil com a expulsão do pacense Eustáquio, mas o que importa é que fizemos boas jogadas, bons golos e nunca tirámos o pé do acelerador. Se não chegámos propriamente ao nível "futebol-arte", pelo menos já fizemos um futebol com princípio, meio e fim. Não só mostrámos mais confiança, como conquistámos uma confiança extra com a goleada. Gonçalves marcou um golo à antiga, de aqui-vai-disto; Taarabt foi um arquiteto-construtor exemplar no meio-campo; e Seferovic fez um dos melhores jogos dos últimos tempos, com golos, assistências e ganas.
Mas talvez o momento mais inspirador tenha sido aquele de Weigl, com o jogo parado. Grimaldo marcara um dos seus livres cirúrgicos e o guarda-redes pacense conseguira chegar à bola, num voo genial. De imediato, como um colega de profissão que sabe reconhecer a grandeza quando a vê, Weigl dá os parabéns a Jordi, o número um do Paços. Deixem-se de "pragmatices", caramba - isto é que é futebol.
