DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
A desigualdade social cresce a olhos vistos e a do futebol reflecte-a cada vez mais descaradamente. É assim que FC Porto e Sporting, por exemplo, se veem de repente incapazes de resistir ao desmoronar dos seus meios-campos.
E o mundo, anestesiado, embrutecido, assiste placidamente à vergonha que destrói as bases de uma das suas grandes paixões. Pensemos com a seriedade possível no novo salário de Mbappé: 167 mil euros por dia. E agora levemos a nossa consciência a visitar o presente e futuro do continente africano, ou mesmo do europeu, ponderando as inevitáveis consequências da guerra em curso na Ucrânia.
Nem seria preciso um raciocínio de tanta amplitude para concluirmos que o mundo é hoje um manicómio a céu aberto. Cristiano Ronaldo, o nosso CR7, gasta 30 mil euros numa garrafa de vinho durante um jantar com a namorada, ou mulher, e se isso me choca logo vem um coro de aspirantes a milionários - porque, na sociedade contemporânea, "Quem quer ser milionário?" é uma pergunta retórica - legitimar tão desproporcionada despesa com o argumento de que ele faz o que quiser ao dinheiro que ganhou. Mas se o mesmo CR7 lançar para o relvado a braçadeira de capitão da Selecção Nacional logo vem um coro de patriotas, em que hipocritamente se inscrevem muitos dos aspirantes a milionários, criticá-lo pelo exemplo que ele dá de desrespeito ao País.
O patriotismo, na sua versão mais provinciana, está hoje acima do humanismo, da solidariedade, de um ideário de bem comum e de outros conceitos ou valores essenciais a uma sociedade minimamente equilibrada. Representa então o quê? Nada. Um punhado de terra. Mas como lembrava - e é irónico recordá-lo estando nós a falar de futebol - um maluco que conheci em Espanha, "somos todos da bola". Esta bola, o mundo, temo-la chutado sistematicamente para a própria baliza. Eu sempre adorei este desporto, em adolescente vi nele inclusive o apoio mais perfeito ao desenvolvimento de uma mundividência pessoal, como se fosse um quadro táctico para o estudo da melhor forma de habitar a sociedade. Hoje sinto-me profundamente desiludido. Mais do que desiludido: enojado. Desculpem os leitores, mas não ficaria bem com a minha consciência se não escrevesse isto. Para a semana pode ser que a bola volte a rolar no meu campo mental.

