Opinião

Na berma do Tour

Uma etapa, duas corridas diferentes

Dois dias antes do segundo dia de descanso do Tour, que antecede a aproximação aos Pirenéus e às derradeiras oportunidades para incomodar a liderança bicéfala da Sky na alta montanha, esta 14ª etapa, com chegada nas duras rampas para o aeródromo de Mende apresentava-se como terreno ideal para vingar uma fuga e, em simultâneo, tentar uma emboscada ao(s) líder(es) da geral. Sim, porque numa grande volta como o Tour são várias as corridas e os dramas que se desenrolam em simultâneo.

Na berma do Tour

O melhor sítio do pelotão está longe de ser o ideal

Um engenheiro belga, chamado Bert Bocken, professor nas universidades belga de Lovaina e holandesa de Eindhoven, concluiu com exatidão, com recurso a supercomputadores, superprogramas de análise de dados e simulação em túnel de vento com 121 bonecos em tamanho real, qual o melhor local para se estar num pelotão de ciclismo. E, para além do que nos diz o senso comum - que ir na roda de outro ciclista permite poupar energia! -, quantificou os ganhos consoante o posicionamento: por exemplo, ir na cabeça do pelotão, de cara ao vento, não é o mesmo que ir de cara ao vento mas sozinho, em fuga. O que puxa o pelotão faz 86% do esforço de um fugitivo, porque o estudo do engenheiro belga demonstra que a termodinâmica faz com haja uma pressão da roda dianteira do segundo ciclista do pelotão sobre a roda traseira do que vai na sua frente, ou seja, "empurra-a". O estudo foi ao ponto de determinar que na cauda do pelotão basta fazer entre 5% a 7% do esforço de quem vai na frente para manter a mesma velocidade.

Na berma do Tour

Ataques de fisga contra o couraçado

Houve um tempo no ciclismo em que os grandes sabiam ser magnânimos, permitindo que pequenos pudessem festejar vitórias de etapa se isso não se intrometesse no grande objetivo da vitória final. Se tivesse corrido nesse tempo, certamente Mikel Nieve não teria deixado a imagem de desalento que ficou da chegada de hoje a La Rosière, a primeira realmente em alto deste Tour. A 300 metros da meta, Nieve foi ultrapassado por Geraint Thomas e, logo depois, por Froome e Dumoulin, altura em que nem esboçou uma tentativa de resistência. A guerra pela geral vitimou o escalador espanhol, frustrado após um dia em fuga e a quem só faltaram 300 metros para saborear os seus 15 segundos de glória.
Neste tempo, no entanto, vive-se sob uma ditadura, que fez questão de mostrar como domina o pelotão com punho de ferro na primeira oportunidade. A Sky ganha mas não de uma forma qualquer: tem especial prazer em esmagar a concorrência, que, pelo menos por enquanto, pouco mais pode fazer do que apostar em táticas de guerrilha para tentar detectar pontos fracos naquele rolo compressor. Foi o que fez a Movistar a meio da etapa, ao lançar o eterno jovem Valverde ao ataque, beneficiando da ajuda de Soler, que ia em fuga, e foi o que fez a Sunweb, quando Dumoulin atacou a descer, numa tentativa de surpreender a organização e programação da Sky.

Na berma do Tour

Alaphilippe, quando o próprio nome é um incentivo

"Alaphilippe, Alaphilippe, vai Philippe, vai Philippe"... Imagino o ciclista gritar o próprio nome em pensamento, enquanto acelera estrada acima, confundido-se esses seus gritos mudos com os do público que logo que o viu acelerar começou a sonhar com uma vitória francesa. E que grande vitória a do pequeno escalador da Quick Step na primeira etapa alpina do Tour, que não só não defraudou as expectativas como foi mesmo um grande espetáculo. Alaphilippe jogou os trunfos na altura certa, atacando na fuga na penúltima subida no que se julgava ser uma aposta para a camisola da montanha e depois ganhou a etapa com outro ataque, desta vez a descer (irónico para um trepador, não?), provando haver espaço para o fator surpresa num ciclismo atual dominado pelo calculismo dos medidores de potência e da apologia dos ganhos marginais.